14 abril 2017

Um legado verde para o cerrado goiano

Modelo de preservação do cerrado replica o modelo de sucesso
adotado para a preservação da Mata Atlântica


Por Reinaldo Canto
No último dia de março, data de triste memória pelo infame golpe de 1964, o Cerrado brasileiro pode comemorar o lançamento do Legado Verdes do Cerrado (https://www.facebook.com/legadoverdesdocerrado), uma área total de 32 mil hectares, sendo 27 mil deles totalmente preservados. A reserva está localizada no município de Niquelândia, próxima ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.
A modalidade legal dessa área está denominada como Reserva Particular de Desenvolvimento Sustentável, o mesmo já adotado no Legado das Águas (www.legadodasaguas.com.br/) com 31 mil hectares de Mata Atlântica no estado de São Paulo, também mantido pelo grupo Votorantim. No caso do Cerrado a empresa do grupo responsável por sua manutenção é a CBA – Companhia Brasileira de Alumínio. As RPDSs permitem aliar a conservação com exploração sustentável. Do espaço total da reserva, cinco mil já são utilizados para a produção de soja, silvicultura e pecuária.
Segundo David Canassa, Diretor das Reservas Votorantim, dentro da ideia de desenvolvimento sustentável, serão produzidas no viveiro entre 60 e 70 mil mudas de espécies nativas do Cerrado, entre frutíferas e árvores para reflorestamento.
Pesquisas e desenvolvimento local
No lançamento do Legado Verdes do Cerrado foram assinados diversos convênios envolvendo os governos (estadual e local), com Universidades públicas, a Embrapa Cerrado e a Fapeg, que é a Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás, entre outros. Tudo isso para que pesquisas sejam capazes de também contribuir para o desenvolvimento econômico e gerar recursos para a manutenção da reserva.
A interação com as comunidades de seu entorno para utilização da área e mesmo o desenvolvimento ligadas ao ecoturismo, educação ambiental e empreendedorismo também estão previstas. Para Canassa, dessa maneira, o tripé econômico, social e ambiental estará completo, “esperamos que após os investimentos iniciais, o plano de negócios do Legado seja capaz de tornar a área autossustentável em torno de cinco anos”.
Riqueza Ambiental
A área total do Legado Verdes do Cerrado é composta de dois núcleos principais que são as fazendas Engenho e Santo Antonio da Serra Negra, pertencentes a CBA desde os anos 70, adquiridas inicialmente para a produção de eucalipto. A Engenho, exatamente a área que foi preservada, abriga inestimáveis flora e fauna, onças inclusive, além de nascentes de três rios que são: Peixes, São Bento e Traíras, aliás, este último é o responsável por abastecer a população de Niquelândia (quase 43 mil habitantes).
A situação do Cerrado brasileiro é dramática
Assim como o Legado das Águas representa um oásis de preservação da ameaçadíssima Mata Atlântica, o Legado Verdes do Cerrado chega em boa hora para contribuir na conservação do bioma Cerrado não muito menos ameaçado.
Um estudo recente publicado em março deste ano na Nature Ecology and Evolution afirma que o avanço do desmatamento no Cerrado é dramático e coloca sob risco de extinção 1.140 espécies de plantas. A pesquisa também constatou que mais da metade da área original do bioma já foi destruída.
Para Bernardo Strassburg, coordenador do estudo, Diretor Executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade e Coordenador do Centro de Ciências para a Conservação e Sustentabilidade do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, no ritmo atual daqui a apenas 30 anos perderá mais de 1/3 de sua área atual. “Esse resultado será causado pelo desmatamento para a expansão da soja, cana de açúcar e pastagem”. Entre 2002 e 2011, as taxas de desmatamento na região (1% ao ano) foram 2,5 vezes mais altas do que na Amazônia.
Importante é realizar esforços para preservar o que ainda resta, concluem os pesquisadores, pois o Cerrado possui 4.600 espécies de plantas que no mundo só existem ali e a parceria com o setor privado acompanhado de políticas públicas tem a real possibilidade de, sem prejudicar a agricultura e as atividades produtivas, será fundamental para que não lamentemos no futuro a perda desse patrimônio ambiental brasileiro.
O Legado Verdes do Cerrado representa uma boa amostra do que é preciso fazer!

Nenhum hectare a menos!

Observatório do Clima lança carta em protesto contra movimento coordenado do governo Temer e do Congresso contra áreas protegidas, terras indígenas e quilombolas e o licenciamento ambiental

O Observatório do Clima, reunido em assembleia em Atalanta (SC), lançou na noite de quarta-feira (12) uma carta em protesto contra o ataque coordenado do Congresso Nacional e do governo de Michel Temer à proteção ambiental e aos direitos dos povos tradicionais.
O documento lista a série de retrocessos promovidos pelo governo e por seus aliados parlamentares nos últimos meses, no que talvez seja a maior ofensiva antiambiental desde a Constituição de 1988. E alerta que o movimento põe em risco as metas climáticas do país, além da segurança de toda a sociedade.
Entre as vítimas estão as unidades de conservação – comissões especiais do Congresso reduziram a proteção de 1,1 milhão de hectares em apenas dois dias, votando propostas enviadas pelo próprio Palácio do Planalto na forma de Medidas Provisórias; as terras indígenas, com a nomeação de Osmar Serraglio (PMDB-PR), um radical da bancada ruralista, para o cargo de ministro da Justiça; as terras públicas, com a proposta da MP 759; e o licenciamento ambiental.
“Após avanços significativos na redução da taxa de desmatamento e na demarcação de terras indígenas e criação de unidades de conservação na década passada – mantendo ao mesmo tempo forte crescimento econômico, safras recorde e geração de empregos –, o Brasil parece retroceder à década de 1980, quando era um pária internacional devido à destruição acelerada de seu patrimônio natural e à violência no campo”, diz a carta.
“O país que gosta de se vender ao mundo como parte da solução da crise do clima voltou a ser um problema. A mesma agropecuária propagandeada como a mais sustentável do mundo é a responsável pela grilagem de terras públicas, pela retirada de direitos de povos e comunidades tradicionais e pequenos agricultores e por rasgar os compromissos domésticos e internacionais de redução de emissões.”
A carta de Atalanta pode ser baixada aqui. Leia abaixo sua íntegra:
*

Nenhum hectare a menos!

Carta do Observatório do Clima contra os retrocessos na agenda socioambiental
Em meio à instabilidade política atual, segmentos do governo e do Congresso avançam rapidamente para desfigurar leis e políticas socioambientais consolidadas a partir da Constituição de 1988. Evidencia-se um esforço concentrado e organizado para a aprovação de um conjunto de medidas que colocam em risco o bem-estar e a segurança da sociedade e nossos compromissos contra as mudanças climáticas.
Na última terça-feira (11/4), uma comissão do Congresso Nacional retalhou um conjunto de unidades de conservação na Amazônia e na Mata Atlântica, liberando para grilagem 660 mil hectares de terras públicas que haviam sido ilegalmente ocupadas e vêm sendo desmatadas. A redução, sem precedentes, foi inicialmente pedida pelo próprio Presidente da República, Michel Temer, por meio da Medida Provisória 756. Na quarta-feira (12/4), em sete minutos, outra comissão especial do Congresso aprovou a Medida Provisória 758, que reduz outros 442 mil hectares de unidades de conservação na Amazônia – em dois dias, 1,1 milhão de hectares.
A redução de áreas protegidas por MP, proposta inicialmente pela ex-presidente Dilma Rousseff e posta em prática por Temer, é uma sinalização do governo de que o crime compensa. A prática vem animando segmentos empresariais e parlamentares a formular propostas visando extinguir, reduzir ou alterar o status de proteção de parques nacionais, reservas extrativistas e outras áreas protegidas. No exemplo mais recente, políticos do Amazonas articulam com a Casa Civil a redução de cerca de 1 milhão de hectares de unidades de conservação no sul do Estado. Tramitam no Congresso Nacional e em várias assembleias legislativas estaduais outros projetos com esses objetivos.
O presidente também editou a MP 759/2016, que, a pretexto de promover a regularização fundiária, incentiva a grilagem de áreas públicas, perenizando o caos urbano e rural, o aumento do desmatamento e a concentração de terras e de renda.
Esses movimentos ocorrem em meio à forte elevação do desmatamento da Amazônia. A devastação cresceu 60% nos últimos dois anos, pondo em risco a meta brasileira de chegar a 2020 com uma redução de 80% na taxa, lançando dúvidas sobre a seriedade do compromisso do governo brasileiro com o Acordo de Paris.
Outras áreas protegidas também estão sob ameaça. Temer nomeou um ruralista radical, Osmar Serraglio (PMDB-PR), para o Ministério da Justiça, ao qual a Funai está subordinada. Serraglio foi o relator, na Câmara, da PEC 215, que viola direitos constitucionais dos índios ao transferir do Executivo para o Congresso a prerrogativa de demarcar terras indígenas. Premiando um militante da injustiça como ministro, Temer toma partido nos conflitos que o governo deveria mediar.
Encontram-se paralisados todos os procedimentos administrativos de demarcação de terras indígenas, titulação de quilombos e criação de assentamentos da reforma agrária e unidades de conservação. O teto de gastos introduzido na Constituição projeta um longo período de arrocho orçamentário para os órgãos e políticas socioambientais – um exemplo é o corte de 43% no orçamento do Ministério do Meio Ambiente em pleno período de alta no desmatamento.
Além das ameaças diretas a áreas protegidas e territórios tradicionais, também pode ser votado na Câmara nos próximos dias o desmonte do licenciamento ambiental. A bancada ruralista, juntamente com a Confederação Nacional da Indústria, vem buscando afrouxar o licenciamento, deixando na mão de Estados e municípios a definição das atividades que precisam de licença – e isentando toda a agropecuária. A vitória dessa proposição, que atropela o diálogo entre governo, congresso e sociedade civil para o aprimoramento deste instrumento, aumentará ainda mais o potencial de tragédias como a ocorrida em Mariana em 2015, além de abrir o caminho para grandes obras, como as investigadas pela Operação Lava Jato, sem qualquer avaliação de impacto.
Nesse cenário, cresce a violência contra jovens, mulheres, trabalhadores rurais, extrativistas, quilombolas e índios. Somente em 2015 foram registrados 50 assassinatos relacionados à luta pela terra e por direitos comunitários. O Brasil é o país onde mais se mata ativistas socioambientais.
Após avanços significativos na redução da taxa de desmatamento e na demarcação de terras indígenas e criação de unidades de conservação na década passada – mantendo ao mesmo tempo forte crescimento econômico, safras recorde e geração de empregos –, o Brasil parece retroceder à década de 1980, quando era um pária internacional devido à destruição acelerada de seu patrimônio natural e à violência no campo.
O país que gosta de se vender ao mundo como parte da solução da crise do clima voltou a ser um problema. A mesma agropecuária propagandeada como a mais sustentável do mundo é a responsável pela grilagem de terras públicas, pela retirada de direitos de povos e comunidades tradicionais e pequenos agricultores e por rasgar os compromissos domésticos e internacionais de redução de emissões.
Em vista desse quadro, o Observatório do Clima: repudia os ataques ao patrimônio nacional e aos direitos da sociedade realizados pelo poder público sob influência de interesses privados; demanda ao Congresso Nacional que não aprove qualquer medida que leve à redução do status de proteção ou eliminação de áreas protegidas, como as Medidas Provisórias 756 e 758, nem qualquer outra medida que fragilize a proteção social e ambiental do país; demanda ao Presidente da República que não recorra mais a MPs para alterar áreas protegidas e vete na íntegra as alterações recentemente propostas pelo Congresso, caso aprovadas; e apoia organizações ambientais e movimentos sociais que juntam forças para fazer frente aos retrocessos, na certeza de que somente o aumento da resistência será capaz de deter e de reverter a atual conjuntura.
Atalanta (SC), 12 de abril de 2017
Assembleia Anual do Observatório do Clima

04 abril 2017

Plant for the Planet: Uma viagem e muitos significados

Por Reinaldo Canto, especial para a Envolverde
Projeto Plant for the Planet da AccorHotels leva camareiras a conhecer áreas de reflorestamento que elas ajudam a manter 
Uma cena bonita de se ver! Moças e rapazes, alguns bem jovens outros nem tanto, se divertindo ao sujar as mãos de terra e plantar uma muda de espécie nativa do bioma Cerrado na belíssima região da Serra da Canastra em Minas Gerais.
A oportunidade de conhecer in loco o resultado de seus esforços cotidianos junto aos hóspedes levou um grupo de 24 profissionais da rede de várias regiões do país, em sua maioria camareiras, para conhecer áreas de restauração florestal que eles têm ajudado a recuperar e que ficam localizadas bem próximas a Usina Hidrelétrica de Furnas e das nascentes do Rio São Francisco.
Mexer com a terra para a maioria não era uma atividade muito comum, mas não que não sejam mãos acostumadas a trabalhar pesado na labuta de limpar quartos diariamente.
O ato de agachar para carinhosamente colocar essa muda de árvore na terra talvez não seja tão diferente na hora de fazer movimentos semelhantes para fazer a limpeza e arrumação dessas unidades. De qualquer maneira, quebrar a rotina e conhecer de perto o significado das inúmeras palestras do projeto Plant for the Planet, tem outro valor que bate forte na autoestima de todos esses profissionais.
Entre passeios e plantio de mudas, muitas das camareiras estavam tendo uma experiência ainda mais significativa para suas vidas, pois algumas delas, nem mesmo haviam saído antes de suas regiões de origem.
É o caso de Joana Paula Taveira, de 34 anos e que trabalha no Hotel Ibis de São Carlos, no interior de São Paulo, há um ano e quatro meses. Até então, ela apenas conhecia os municípios vizinhos a sua região e disse estar muito feliz com a viagem e se sentir muito reconhecida e motivada a partir dessa experiência: “Achei tudo espetacular e aprendi muito”. E, completa, “eu estou agora ainda mais convencida da importância desse trabalho”.
Ao fim da viagem de 4 dias, a sensação unânime entre os participantes era de muita alegria.
Responsabilidade Socioambiental
Unir o útil ao agradável, ou melhor, o social ao ambiental deveria ser o sonho de qualquer empresa ou organização que, além de vender bons produtos e serviços, também compreendem a sua responsabilidade perante a sociedade.
Muitas vezes para ser sustentável é preciso, em primeiro lugar, ter boa vontade e entender a importância de fazer algo positivo, principalmente, se levarmos em conta os já óbvios e nefastos efeitos das mudanças climáticas.
Como por exemplo, o singelo ato de pedir ao seu hóspede no hotel para reutilizar as toalhas ao invés de usa-la uma única vez e já solicitar a troca. Bastando para isso utilizar o simpático argumento de que a cada dia que permanecer com a mesma toalha, uma árvore será plantada. Simples, não?
E para o sucesso de uma empreitada como essa é, sem dúvida, fundamental contar com o engajamento também de funcionários, ainda mais aqueles que atuam na linha de frente e que mantêm contato direto com os clientes, caso nos hotéis, entre outros, das camareiras. Por isso mesmo, paralelamente, a educação ambiental dentro de casa é de grande importância para o convencimento desses profissionais. Porque só é possível “vender” essa ideia de trocar a lavagem de uma toalha por uma árvore se isso fizer sentido para todos os envolvidos, não é mesmo?
Visita ao projeto Plant for the Planet e ao trabalho da ONG Nordesta“O objetivo da viagem foi o de ressaltar a importância das atividades diárias desses colaboradores para o sucesso do programa e mostrar o resultado desse comprometimento na prática”, explica Antonieta Varlese, vice-presidente de Comunicação e de Responsabilidade Social da AccorHotels para América do Sul.
O Plant for the Planet foi criado em 2009 e a ideia da reutilização das toalhas em troca do plantio de árvores é válido para todos os hotéis da Rede Accor (Ibis, Novotel, Grand Mercure, entre outros) e até aqui tem obtido bons resultados no Brasil. Em parceria com a ONG Nordesta (http://www.nordesta.org/pt_BR) que atua na Serra da Canastra já foram plantadas 530 mil mudas nativas em áreas de nascentes de Cerrado e Mata Atlântica, numa área correspondente a, mais ou menos, 418 campos de futebol.
Por vezes o caminho da sustentabilidade pode começar por evitar a troca de uma toalha e obter bons resultados. Mas claro que será preciso avançar ainda mais para que possamos finalmente chegar a um equilíbrio que nos coloque em sintonia com as necessidades humanas e ambientais. O certo é que as boas ações e projetos precisam ser destacadas e multiplicadas!! (#Envolverde)
*Reinaldo Canto é jornalista, Membro do Conselho Editorial do Portal Envolverde, colunista de Carta Capital, ex-diretor de Comunicação do Greenpeace Brasil e do Instituto Akatu, além de professor e especialista em sustentabilidade.

16 março 2017


Febre amarela: a crueldade e a ignorância andam juntas

Por Reinaldo Canto

O recente surto da doença desencadeou o irracional e estúpido assassinato de macacos que não tem nenhuma responsabilidade

Se já não bastassem as corriqueiras barbaridades cometidas contra o Meio Ambiente, especialmente na nossa já tão debilitada Mata Atlântica, ainda somos obrigados a assistir a essa irracional caçada e assassinato de primatas, sendo que várias dessas espécies já se encontram na lista de animais em processo de extinção, tais como, Bugio, o Macaco-prego-de-crista, além do Muriqui do sul e do norte.
A situação ficou tão grave pelos diversos casos registrados nos estados de São Paulo e Minas Gerais que levou o Ministério do Meio Ambiente a emitir um alerta à sociedade sobre a gravidade desses atos de violência. Além de informar que os agressores estão cometendo um crime passível de detenção, a nota do ministério esclarece que os macacos não são responsáveis pela transmissão da febre amarela aos humanos.
Em recente declaração, o diretor de Conservação e Manejo de Espécies do MMA, Ugo Vercílio alertou: “É importante que a população tenha plena consciência de que os macacos não são responsáveis pela existência do vírus e nem por sua transmissão a humanos. Eles precisam ser protegidos”.
Os macacos muitas vezes são os primeiros a serem infectados e as primeiras vítimas, contribuindo até mesmo para deixar populações em alerta. “Os primatas agem como verdadeiros anjos da guarda dos seres humanos, pois quando ocorre a morte desses animais em escala anormal, como vem ocorrendo em determinadas regiões da Mata Atlântica, isso é um indicativo da presença do vírus”, ressaltou Danilo Simonni Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia.
Sem computar as brutalidades humanas, o Ministério da Saúde já registrou 968 mortes de primatas com suspeita de febre amarela, desde dezembro de 2016. Desses 386 já foram confirmadas como sido causadas pela doença.  

 A RESPONSABILIDADE DA TRAGÉDIA DA SAMARCO
Tão grave quanto responsabilizar animais indefesos pela febre amarela em humanos é a forte suspeita de que a doença tenha surgido em cidades mineiras próximas ao Rio Doce e que foram afetadas pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana. Só em Minas Gerais o surto atingiu 152 cidades e mais de 100 mortes de pessoas já foram confirmadas sendo que outros casos permanecem em análise. 
 O desmatamento provocado pela tragédia e o forte impacto na saúde dos animais dessas localidades podem ter desencadeado o surgimento da doença. Essa suspeita foi levantada pela bióloga Márcia Chame, coordenadora dos estudos de Biodiversidade e Saúde Silvestre na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo. Segundo ela, "Com o estresse de desastres, com a falta de alimentos, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo a febre amarela".
Este episódio revela mais uma vez como a ignorância acompanhada muitas vezes de suas irmãs siamesas, a irresponsabilidade e a ganância vitimam com frequência alarmante o nosso meio ambiente.
Os primatas que habitam as nossas já escassas florestas de Mata Atlântica cumprem um papel fundamental para a preservação da biodiversidade e, portanto, merecem todo o nosso respeito.
Mata-los de maneira estúpida e sem sentido, nos tornam menos humanos e nossa existência neste planeta ainda mais pobre.
LEGISLAÇÃO E DENÚNCIA
A legislação ambiental é clara: matar ou maltratar animais é crime, cuja pena pode chegar a um ano de detenção, além da aplicação de multa. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a população deve denunciar casos de violência contra animais da fauna brasileira pelo serviço Linha Verde:
Fone:0800-61-8080
E-mail: linhaverde.sede@ibama.gov.br
Fone 136: informar às autoridades em saúde a ocorrência de animais mortos ou com suspeita da doença.

01 fevereiro 2017

TRUMP, NA CONTRAMÃO DO MUNDO

A temperatura bate recorde e o presidente dos EUA anuncia investimentos em energias fósseis
Por Reinaldo Canto
Nicholas Kamm / AFP
Donald Trump
Trump assina ordem autorizando a construção do oleoduto Keystone XL, que havia sido barrado por Obama
Ninguém se surpreendeu com as primeiras medidas tomadas por Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, uma vez que entre as suas principais bandeiras de campanha estava o desmonte das obras e legados de Barack Obama.
Na área ambiental, a primeira ação da nova administração foi eliminar do site da Casa Branca a página com notícias e ações do governo sobre mudanças climáticas. O objetivo imediato de Trump é acabar com o Plano de Ação Climática do governo anterior e iniciar fortes investimentos na exploração de petróleo, gás e carvão.
No último dia 24, ele assinou ordens executivas aprovando a construção dos polêmicos oleodutos Keystone XL e Dakota Access que, por seus enormes riscos ambientais, haviam sido barrados por Obama.
Para Trump, acabar com o legado ambiental será uma forma de “eliminar políticas danosas e desnecessárias” e, segundo ele, gerar empregos.
Trump não apresentou evidências disso, mas ignora provas do aquecimento global. Dados divulgados pela Organização Meteorológica Mundial e pela Nasa, a agência espacial norte-americana, constataram que 2016 foi o ano mais quente da história, sendo o terceiro ano consecutivo de recorde no aumento da temperatura global.  
Os levantamentos apontam para a continuidade desse processo de aquecimento constante e as simulações para 2050 mostram que, veja só a ironia,  os EUA chegarão a um aumento de 2º C antes do resto do mundo. Em alguns dos estados mais ricos do país, a temperatura deverá atingir 3º C a mais do que a média planetária.
Consequentemente, os Estados Unidos, grandes produtores de alimentos, devem ter perdas agrícolas enormes, além de experimentarem um crescimento de fenômenos climáticos extremos, tais como tornados, enchentes e secas prolongadas.
São sinais eloquentes de que não será possível para Donald Trump considerar os Estados Unidos uma ilha, por mais que ele cerque o país com muros. No caso das mudanças climáticas não existem soluções nacionalistas. Este é um problema que envolve decisões conjuntas de toda a comunidade internacional. O horizonte é de grandes perdas econômicas e, como se pode ver, os Estados Unidos serão muito afetados em decorrência do aquecimento global.
Resistências à truculência e ignorância do novo mandatário norte-americano começaram a surgir.
Uma delas e de grande relevância foi a carta endereçada a Trump por mais de 540 empresas e 100 grandes investidores participantes do movimento empresarial Low-Carbon USA O grupo pede à nova administração da Casa Branca e também ao novo Congresso apoio às políticas que acelerem a transição do país para uma economia de baixo carbono, com o objetivo de enfrentar as mudanças climáticas.
Entre as empresas signatárias estão gigantes como Starbucks, Nike, L’Oreal, Gap, Levi’s, Unilever, General Mills, Hilton, Dupont e Schneider Electric, entre outras. Juntas, essas corporações representam receita anual superior a 1,15 trilhão de dólares e empregam cerca de  2 milhões de pessoas em todo o país.
A carta faz menção ao Acordo Climático de Paris e à necessidade de se cumprir suas metas de redução das emissões globais dos gases de efeito estufa. As empresas listadas afirmam que farão sua parte para “cumprir os compromissos do Acordo Climático de Paris de uma economia global que limita o aumento da temperatura planetária bem abaixo de dois graus Celsius”. Entre as ações listadas pelas empresas estão o aumento da eficiência energética e a utilização crescente de energias limpas e renováveis.
Para Anna Walker, diretora sênior de Política Global e Advocacy da Levi Strauss & Co., "é imperativo que as empresas tomem um papel ativo no cumprimento dos objetivos estabelecidos pelo Acordo Climático de Paris". “Será fundamental que trabalhemos juntos para garantir que os EUA mantenham sua liderança climática, garantindo, em última instância, a prosperidade econômica de longo prazo de nossa nação", disse.
Trump deve ficar atento à essa realidade. Empresas norte-americanas já investiram muitos bilhões de dólares em energia renovável dentro e fora do país. Além disso, esse mercado é promissor para os EUA, ainda que a liderança esteja em disputa com China, Alemanha e Japão, entre outros.
O que o mundo e os EUA menos precisam neste momento é de uma visão limítrofe e atrasada. Trump, o “presidente do fim do mundo”, pode retardar o avanço para uma economia de baixo carbono, mas, espera-se, não poderá sozinho alterar os rumos da economia mundial, inclinada nesse sentido. Ainda assim, neste aspecto parece evidente que sua passagem pela Casa Branca será ruim para todos, inclusive para seus eleitores.

20 janeiro 2017

COMUNIDADE DA ROCINHA REVÊ RELAÇÃO COM RESÍDUOS



No Rio, projeto divide responsabilidades, une os setores público e privado com a sociedade civil e busca reduzir os problemas com o lixo

Por Reinaldo Canto


Rodrigo Anis / Viva Rio Socioambiental
Rocinha
O projeto na Rocinha serve de exemplo


O conceito de responsabilidade compartilhada é tão essencial na gestão do lixo que está na premissa da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Nem sempre é fácil exercer essa divisão do trabalho, mas alguns exemplos servem de referência. 
Um deles está no Rio de Janeiro, e surgiu a partir da união entre a Associação de Supermercados do Estado do RJ (Asserj), a ONG Viva Rio Socioambiental, a Secretaria de Estado do Ambiente e os moradores da Rocinha.
A associação entrou com o financiamento do projeto (que não recebe dinheiro público), enquanto a secretaria forneceu a infraestrutura pública de apoio e a Viva Rio ficou como a responsável por sua execução. O trabalho que vem sendo realizado desde junho e tem duração prevista de 30 meses conseguiu retirar até aqui cerca de 340 toneladas de resíduos da Rocinha.
Reduzir o descarte de lixo irregular e seus impactos para a qualidade de vida das pessoas e para o meio ambiente estão, obviamente, entre os principais objetivos do trabalho. A ideia, também, é transformar positivamente a relação das pessoas com os resíduos.
O projeto, denominado De Olho no Lixo, pretende contribuir para mudar o comportamento da comunidade em relação a todo esse material descartado diariamente. O trabalho é árduo e, certamente, se não houver uma sensibilização dos moradores, os efeitos das ações serão limitadas.
Não é uma tarefa simples alterar comportamentos arraigados há muito tempo. Lixo jogado pela janela ainda é uma realidade comum na Rocinha. Atirar objetos nas 29 canaletas de água que cortam a comunidade também. E todo esse material percorre as águas sujas do córrego até chegar à praia de São Conrado.
Com a ação dos agentes, o lixo já diminuiu muito, as águas de São Conrado estão um pouco menos sujas. O problema da gestão de resíduos no país, no entanto, é bem mais complexo e uma solução definitiva vai depender de muito mais ações e engajamentos.
Vivemos em um cenário de esgotamento dos nossos aterros sanitários (locais de descarte correto dos resíduos), com a contaminação por materiais despejados em lixões (dos 5.570 municípios brasileiros 1.569 ainda possuem lixões que são locais impróprios para o descarte), rios, córregos e terrenos baldios de maneira irregular.
E, o que agrava ainda mais a situação, a quase totalidade das 80 milhões de toneladas de resíduos geradas por ano no País é descartada e não reutilizadas, um destino que geraria um círculo virtuoso na cadeia produtiva, gerando emprego e renda.
A efetiva implantação da lei dos resíduos sólidos no Brasil caminha a passos lentos, pois a tal da responsabilidade compartilhada deveria ser norma corrente em todos os setores, mas o que se vê com frequência é uma quantidade gigantesca de materiais sendo descartados de maneira criminosa. 
Transformar a relação com os resíduos
Entre as atividades dos 30 agentes ambientais contratados, todos moradores da Rocinha, estão, além da complexa tarefa de coletar o lixo em locais de difícil acesso, como morros, vielas e córregos (áreas em que a Comlurb, Companhia Municipal de Limpeza Urbana, não consegue chegar), eles também têm a missão de conscientizar os moradores para o descarte correto.
Entre as muitas dificuldades enfrentadas está o grande desconhecimento e ceticismo das pessoas. Waldir José Fontoura, um dos agentes e que antes trabalhava como balconista, afirma que o boca a boca com as famílias da comunidade é muito importante. Para ele, falta muita informação. “Quando falo para as pessoas pararem de jogar lixo, recebo como resposta que se não jogarem eu vou ficar sem emprego”. Mesmo diante desse desafio, Waldir tenta manter o otimismo, “depois que a gente conversa, elas entendem e, tenho certeza, os resultados vão ser muito bons para todos”.
Segundo Marcia Rollemberg, coordenadora do Viva Rio Socioambiental, a maior parte dos resíduos retirados de pontos estratégicos, como no Lajão (encosta), vão para os pontos de coleta da Comlurb. O restante são materiais enviados para o Centro de Triagem de Resíduos (CTR).
Arte e moda a partir dos resíduos
Os resíduos coletados no CTR contribuem com insumos para duas outras iniciativas do De Olho no Lixo, que unem a questão da educação ambiental com a geração de renda e a profissionalização: o Funk Verde e a Eco Moda.
O primeiro, comandado pela percussionista, jornalista e ativista Regina Café, transforma diversos resíduos em instrumentos musicais. Os participantes, com idades que vão dos 13 aos 80 anos, aprendem sobre o reaproveitamento dos materiais, mas sem descuidar dos ensinamentos da teoria musical e rítmica. “Todas são maneiras de melhorar o ambiente em que se vive”, explica a coordenadora do Funk Verde, que em breve entrará em estúdio para gravar um disco com músicas compostas e executadas pelos integrantes do projeto.
O conhecido estilista Almir França, coordenador-geral do Eco Moda, reforça os objetivos mercadológicos do projeto. “O descarte custa caro para a indústria da moda, o nosso papel é descobrir novas possibilidades de produtos, texturas e fomentar o empreendedorismo”, diz. “É o empoderamento por meio do lixo”.
Banners utilizados e depois descartados pelas escolas de samba, por exemplo, se transformam em bolsas, retalhos viram vestidos e por aí vai, sem deixar a beleza e as tendências da moda de lado. “Aqui fazemos uma moda conceitual misturada com educação ambiental”, explica Pedro Lopes, um dos instrutores dos atuais 50 alunos. 
O presidente-executivo da Asserj, Fabio de Queiroz, diz que o projeto tem se mostrado eficaz, pois incentiva o trabalho conjunto entre o poder público e a iniciativa privada. Segundo ele, a associação “ganha na divulgação e na transformação positiva da realidade local”.
Outro ponto importante é não aparecer com a solução pronta sem a efetiva participação da comunidade. Essa é a opinião do secretário de estado do Ambiente, André Corrêa. "Nosso objetivo é aprender fazendo, não há receita de bolo. Vamos construir esta realidade junto com a comunidade”.
Melhor do que buscar ações puramente filantrópicas, a união de vários setores traz benefícios sociais, melhora a qualidade de vida das pessoas e a coloca como protagonista de suas existências.
Sem continuidade, o projeto poderá ficar na conta das boas intenções, com alcance limitado e com data para se extinguir. Caso contrário, quem sabe o exemplo da Rocinha se multiplique e faça com que os resíduos se tornem ponto de partida para a construção de uma realidade mais sustentável para todos.