01 fevereiro 2017

TRUMP, NA CONTRAMÃO DO MUNDO

A temperatura bate recorde e o presidente dos EUA anuncia investimentos em energias fósseis
Por Reinaldo Canto
Nicholas Kamm / AFP
Donald Trump
Trump assina ordem autorizando a construção do oleoduto Keystone XL, que havia sido barrado por Obama
Ninguém se surpreendeu com as primeiras medidas tomadas por Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, uma vez que entre as suas principais bandeiras de campanha estava o desmonte das obras e legados de Barack Obama.
Na área ambiental, a primeira ação da nova administração foi eliminar do site da Casa Branca a página com notícias e ações do governo sobre mudanças climáticas. O objetivo imediato de Trump é acabar com o Plano de Ação Climática do governo anterior e iniciar fortes investimentos na exploração de petróleo, gás e carvão.
No último dia 24, ele assinou ordens executivas aprovando a construção dos polêmicos oleodutos Keystone XL e Dakota Access que, por seus enormes riscos ambientais, haviam sido barrados por Obama.
Para Trump, acabar com o legado ambiental será uma forma de “eliminar políticas danosas e desnecessárias” e, segundo ele, gerar empregos.
Trump não apresentou evidências disso, mas ignora provas do aquecimento global. Dados divulgados pela Organização Meteorológica Mundial e pela Nasa, a agência espacial norte-americana, constataram que 2016 foi o ano mais quente da história, sendo o terceiro ano consecutivo de recorde no aumento da temperatura global.  
Os levantamentos apontam para a continuidade desse processo de aquecimento constante e as simulações para 2050 mostram que, veja só a ironia,  os EUA chegarão a um aumento de 2º C antes do resto do mundo. Em alguns dos estados mais ricos do país, a temperatura deverá atingir 3º C a mais do que a média planetária.
Consequentemente, os Estados Unidos, grandes produtores de alimentos, devem ter perdas agrícolas enormes, além de experimentarem um crescimento de fenômenos climáticos extremos, tais como tornados, enchentes e secas prolongadas.
São sinais eloquentes de que não será possível para Donald Trump considerar os Estados Unidos uma ilha, por mais que ele cerque o país com muros. No caso das mudanças climáticas não existem soluções nacionalistas. Este é um problema que envolve decisões conjuntas de toda a comunidade internacional. O horizonte é de grandes perdas econômicas e, como se pode ver, os Estados Unidos serão muito afetados em decorrência do aquecimento global.
Resistências à truculência e ignorância do novo mandatário norte-americano começaram a surgir.
Uma delas e de grande relevância foi a carta endereçada a Trump por mais de 540 empresas e 100 grandes investidores participantes do movimento empresarial Low-Carbon USA O grupo pede à nova administração da Casa Branca e também ao novo Congresso apoio às políticas que acelerem a transição do país para uma economia de baixo carbono, com o objetivo de enfrentar as mudanças climáticas.
Entre as empresas signatárias estão gigantes como Starbucks, Nike, L’Oreal, Gap, Levi’s, Unilever, General Mills, Hilton, Dupont e Schneider Electric, entre outras. Juntas, essas corporações representam receita anual superior a 1,15 trilhão de dólares e empregam cerca de  2 milhões de pessoas em todo o país.
A carta faz menção ao Acordo Climático de Paris e à necessidade de se cumprir suas metas de redução das emissões globais dos gases de efeito estufa. As empresas listadas afirmam que farão sua parte para “cumprir os compromissos do Acordo Climático de Paris de uma economia global que limita o aumento da temperatura planetária bem abaixo de dois graus Celsius”. Entre as ações listadas pelas empresas estão o aumento da eficiência energética e a utilização crescente de energias limpas e renováveis.
Para Anna Walker, diretora sênior de Política Global e Advocacy da Levi Strauss & Co., "é imperativo que as empresas tomem um papel ativo no cumprimento dos objetivos estabelecidos pelo Acordo Climático de Paris". “Será fundamental que trabalhemos juntos para garantir que os EUA mantenham sua liderança climática, garantindo, em última instância, a prosperidade econômica de longo prazo de nossa nação", disse.
Trump deve ficar atento à essa realidade. Empresas norte-americanas já investiram muitos bilhões de dólares em energia renovável dentro e fora do país. Além disso, esse mercado é promissor para os EUA, ainda que a liderança esteja em disputa com China, Alemanha e Japão, entre outros.
O que o mundo e os EUA menos precisam neste momento é de uma visão limítrofe e atrasada. Trump, o “presidente do fim do mundo”, pode retardar o avanço para uma economia de baixo carbono, mas, espera-se, não poderá sozinho alterar os rumos da economia mundial, inclinada nesse sentido. Ainda assim, neste aspecto parece evidente que sua passagem pela Casa Branca será ruim para todos, inclusive para seus eleitores.

20 janeiro 2017

COMUNIDADE DA ROCINHA REVÊ RELAÇÃO COM RESÍDUOS



No Rio, projeto divide responsabilidades, une os setores público e privado com a sociedade civil e busca reduzir os problemas com o lixo

Por Reinaldo Canto


Rodrigo Anis / Viva Rio Socioambiental
Rocinha
O projeto na Rocinha serve de exemplo


O conceito de responsabilidade compartilhada é tão essencial na gestão do lixo que está na premissa da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Nem sempre é fácil exercer essa divisão do trabalho, mas alguns exemplos servem de referência. 
Um deles está no Rio de Janeiro, e surgiu a partir da união entre a Associação de Supermercados do Estado do RJ (Asserj), a ONG Viva Rio Socioambiental, a Secretaria de Estado do Ambiente e os moradores da Rocinha.
A associação entrou com o financiamento do projeto (que não recebe dinheiro público), enquanto a secretaria forneceu a infraestrutura pública de apoio e a Viva Rio ficou como a responsável por sua execução. O trabalho que vem sendo realizado desde junho e tem duração prevista de 30 meses conseguiu retirar até aqui cerca de 340 toneladas de resíduos da Rocinha.
Reduzir o descarte de lixo irregular e seus impactos para a qualidade de vida das pessoas e para o meio ambiente estão, obviamente, entre os principais objetivos do trabalho. A ideia, também, é transformar positivamente a relação das pessoas com os resíduos.
O projeto, denominado De Olho no Lixo, pretende contribuir para mudar o comportamento da comunidade em relação a todo esse material descartado diariamente. O trabalho é árduo e, certamente, se não houver uma sensibilização dos moradores, os efeitos das ações serão limitadas.
Não é uma tarefa simples alterar comportamentos arraigados há muito tempo. Lixo jogado pela janela ainda é uma realidade comum na Rocinha. Atirar objetos nas 29 canaletas de água que cortam a comunidade também. E todo esse material percorre as águas sujas do córrego até chegar à praia de São Conrado.
Com a ação dos agentes, o lixo já diminuiu muito, as águas de São Conrado estão um pouco menos sujas. O problema da gestão de resíduos no país, no entanto, é bem mais complexo e uma solução definitiva vai depender de muito mais ações e engajamentos.
Vivemos em um cenário de esgotamento dos nossos aterros sanitários (locais de descarte correto dos resíduos), com a contaminação por materiais despejados em lixões (dos 5.570 municípios brasileiros 1.569 ainda possuem lixões que são locais impróprios para o descarte), rios, córregos e terrenos baldios de maneira irregular.
E, o que agrava ainda mais a situação, a quase totalidade das 80 milhões de toneladas de resíduos geradas por ano no País é descartada e não reutilizadas, um destino que geraria um círculo virtuoso na cadeia produtiva, gerando emprego e renda.
A efetiva implantação da lei dos resíduos sólidos no Brasil caminha a passos lentos, pois a tal da responsabilidade compartilhada deveria ser norma corrente em todos os setores, mas o que se vê com frequência é uma quantidade gigantesca de materiais sendo descartados de maneira criminosa. 
Transformar a relação com os resíduos
Entre as atividades dos 30 agentes ambientais contratados, todos moradores da Rocinha, estão, além da complexa tarefa de coletar o lixo em locais de difícil acesso, como morros, vielas e córregos (áreas em que a Comlurb, Companhia Municipal de Limpeza Urbana, não consegue chegar), eles também têm a missão de conscientizar os moradores para o descarte correto.
Entre as muitas dificuldades enfrentadas está o grande desconhecimento e ceticismo das pessoas. Waldir José Fontoura, um dos agentes e que antes trabalhava como balconista, afirma que o boca a boca com as famílias da comunidade é muito importante. Para ele, falta muita informação. “Quando falo para as pessoas pararem de jogar lixo, recebo como resposta que se não jogarem eu vou ficar sem emprego”. Mesmo diante desse desafio, Waldir tenta manter o otimismo, “depois que a gente conversa, elas entendem e, tenho certeza, os resultados vão ser muito bons para todos”.
Segundo Marcia Rollemberg, coordenadora do Viva Rio Socioambiental, a maior parte dos resíduos retirados de pontos estratégicos, como no Lajão (encosta), vão para os pontos de coleta da Comlurb. O restante são materiais enviados para o Centro de Triagem de Resíduos (CTR).
Arte e moda a partir dos resíduos
Os resíduos coletados no CTR contribuem com insumos para duas outras iniciativas do De Olho no Lixo, que unem a questão da educação ambiental com a geração de renda e a profissionalização: o Funk Verde e a Eco Moda.
O primeiro, comandado pela percussionista, jornalista e ativista Regina Café, transforma diversos resíduos em instrumentos musicais. Os participantes, com idades que vão dos 13 aos 80 anos, aprendem sobre o reaproveitamento dos materiais, mas sem descuidar dos ensinamentos da teoria musical e rítmica. “Todas são maneiras de melhorar o ambiente em que se vive”, explica a coordenadora do Funk Verde, que em breve entrará em estúdio para gravar um disco com músicas compostas e executadas pelos integrantes do projeto.
O conhecido estilista Almir França, coordenador-geral do Eco Moda, reforça os objetivos mercadológicos do projeto. “O descarte custa caro para a indústria da moda, o nosso papel é descobrir novas possibilidades de produtos, texturas e fomentar o empreendedorismo”, diz. “É o empoderamento por meio do lixo”.
Banners utilizados e depois descartados pelas escolas de samba, por exemplo, se transformam em bolsas, retalhos viram vestidos e por aí vai, sem deixar a beleza e as tendências da moda de lado. “Aqui fazemos uma moda conceitual misturada com educação ambiental”, explica Pedro Lopes, um dos instrutores dos atuais 50 alunos. 
O presidente-executivo da Asserj, Fabio de Queiroz, diz que o projeto tem se mostrado eficaz, pois incentiva o trabalho conjunto entre o poder público e a iniciativa privada. Segundo ele, a associação “ganha na divulgação e na transformação positiva da realidade local”.
Outro ponto importante é não aparecer com a solução pronta sem a efetiva participação da comunidade. Essa é a opinião do secretário de estado do Ambiente, André Corrêa. "Nosso objetivo é aprender fazendo, não há receita de bolo. Vamos construir esta realidade junto com a comunidade”.
Melhor do que buscar ações puramente filantrópicas, a união de vários setores traz benefícios sociais, melhora a qualidade de vida das pessoas e a coloca como protagonista de suas existências.
Sem continuidade, o projeto poderá ficar na conta das boas intenções, com alcance limitado e com data para se extinguir. Caso contrário, quem sabe o exemplo da Rocinha se multiplique e faça com que os resíduos se tornem ponto de partida para a construção de uma realidade mais sustentável para todos.

12 dezembro 2016

A destruição da Amazônia prossegue

No último ano, o Brasil destruiu quase 8 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica

Por Reinaldo Canto


Marcelo Camargo / Agência Brasil
Madeira ilegal
Madeira ilegal apreendida em Colniza (MT): desmatamento cresce


O Brasil segue firme em sua capacidade de produzir más notícias aos borbotões. Economia em queda, política em descrédito e credibilidade institucional abaixo do nível da mediocridade. 
A mais nova estrela dessa constelação de barbaridades vem dos índices de desmatamento. Entre agosto de 2015 e julho de 2016, o Brasil destruiu quase 8 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica, um aumento de 29% em relação ao levantamento anterior. Os estados que concentraram a maior devastação foram o Pará, que sozinho concentrou 40% do total, e o Mato Grosso. Juntos PA e MT foram responsáveis pela derrubada de 4,5 mil quilômetros quadrados de florestas.
O levantamento foi divulgado pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), órgão ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Esse resultado, normalmente, seria divulgado no meio do ano, mas provavelmente para evitar constrangimentos durante a participação do País na COP 22, a Conferência do Clima em, Marraquexe, no Marrocos, no início de novembro, decidiu-se pela postergação desses números catastróficos. A área desmatada representam cinco vezes o tamanho da cidade de São Paulo. 
Quem se lembra da risível participação do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, durante a COP e suas afirmações que meio ambiente e agronegócio caminham lado a lado e de que temos a produção agrícola mais sustentável do mundo?
Se esses números já tivessem sido divulgados no Marrocos, talvez não fossemos contemplados com essas pérolas fantasiosas proferidas pelo ex-governador do Mato Grosso. 
O certo é que a devastação de nossas florestas parece estar em uma ascensão brutal, uma vez que no período anterior o aumento havia sido de mais de 20%. 
O desmatamento acelerado afeta diretamente a meta estabelecida pelo Brasil de reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa e, assim, colocar o atual governo em saias justas, comprometendo ainda mais a imagem do País.
Para Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, apenas com esse desmatamento o Brasil aumenta as suas emissões em 130 milhões de toneladas de gás carbônico. “É o mesmo que o Estado de São Paulo, o mais populoso do país, emitiu em todo o ano de 2015, ou duas vezes a emissão anual de Portugal”, afirma o coordenador do OC. 
A ausência de fiscalização efetiva é apontada por ambientalistas como uma das razões para o crescimento dos índices da destruição florestal.
Por mais chocantes e tristes que sejam esses dados, não deveria existir surpresa. O que podemos esperar de uma gestão pública frágil, omissa e incompetente? Virar as costas para as verdadeiras riquezas do país e privilegiar interesses menores é o mais óbvio resultado dessa pobre equação.

01 dezembro 2016

CONSUMO CONSCIENTE, REFLORESTAMENTO E UM FUTURO SUSTENTÁVEL

Envolverde Convida – O Futuro das Cidades

As cidades tornaram-se o habitat preferencial das pessoas. Até o final deste século quase 90% da população da Terra estará vivendo em centros urbanos.  O Brasil também passa por uma fase de grande concentração em cidades. Atualmente o País tem quase 20 cidades com mais de 1 milhão de pessoas. São Paulo com uma região metropolitana de 20 milhões e Rio de Janeiro com cerca de 11 milhões.
Como será a vida nessas cidades? Para buscar respostas, o Instituto Envolverde está realizando o Projeto Envolverde Convida – O Futuro das Cidades, uma oportunidade de diálogo entre jornalistas, especialistas para elaborar pensamentos e debater tendências em temas como habitação, transporte, educação, saúde e outros temas relevantes e que fazem parte do cotidiano da gestão pública local.
Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock

Para esta primeira edição teremos a participação da arquiteta e urbanista Ermínia Maricato e do diretor do ICLEI Rodrigo Perpétuo, além de um representante do Programa ONU Habitat, com mediação do jornalista Dal Marcondes, da Agência Envolverde.
A série “O Futuro das Cidades” terá 7 eventos
Com o apoio da Unibes Cultural, o primeiro encontro vai acontecer em 14 de dezembro de 2016, e os seis seguintes serão realizados durante o ano de 2017.
  • 14 de dezembro de 2016 – O Futuro das Cidades – Como você vai viver neste século
  • Março de 2017 – O Futuro das Cidades –Água: poluição, desperdício e escassez
  • Maio de 2017 – O Futuro das Cidades – Juventude e Trabalho: Como você vai trabalhar no século 21
  • Junho de 2017 – O Futuro das Cidades: Desafios do Antropoceno: Impactos das cidades sobre a biodiversidade
  • Agosto de 2017 – O Futuro das Cidades – Inovação: A economia do amanhã
  • Setembro de 2017 – O Futuro das Cidades – O sonho da mobilidade rápida
  • Novembro de 2017 – O Futuro das Cidades –A garantia de saúde para todos
As inscrições para todos os eventos são gratuitas.
Envolverde Convida – O Futuro das Cidades” conta com o apoio da Unibes Cultural, Brasil Kirin e ICLEI-Governos Locais pela Sustentabilidade, e com os parceiros Revista ECO21, Revista Plurale, Revista do Meio Ambiente, Instituto Mais e Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA).
Serviço
Data: 14 de dezembro de 2016
Hora: das 10h às 12h00
Local: Auditório Unibes Cultural – Rua Oscar Freire, 2.500 (ao lado do Metrô Sumaré)
Sobre o Instituto Envolverde
O Instituto Envolverde é uma organização social que mantém a Agência Envolverde, o principal site jornalístico sobre sustentabilidade, meio ambiente e desenvolvimento humano no Brasil. Com foco na cobertura de políticas públicas, a Envolverde promove eventos que ajudem a aprofundar o conhecimento sobre temas relevantes para a sociedade brasileira. Em 2018 o Projeto Envolverde completará 20 anos.
Sobre a Unibes Cultural
Não é de hoje que a Unibes trabalha para transformar a vida de milhares de famílias em situação de vulnerabilidade social com programas voltados à educação, capacitação, saúde e inclusão. Uma história que não acaba por aí, porque a Unibes sempre acredita que existem novas formas de contribuir para a sociedade.
Por isso criou, em 2015, na cidade de São Paulo, um novo centro cultural que nasceu com a vocação de apresentar os grandes temas globais e refletir sobre como são incorporados na cultura da cidade. Um lugar para a expressão de jovens talentos e nomes consagrados nas diferentes áreas de conhecimento. Espaço democrático e aberto a diversos públicos, com uma programação extensa e 90% gratuita para todos os gostos e idades.
A Unibes Cultural representa um novo marco no trabalho centenário da Unibes e comemora o seu primeiro ano com a casa cheia. Desde a sua inauguração, foram mais de mil eventos realizados e três mil e quatrocentos projetos acolhidos de empreendedores culturais. 
Mais informações
Instituto Envolverde – www.envolverde.org.br
Ana Maria Vasconcellos
(13) 3323-1191
(11) 3034-4887
Unibes Cultural
Rua Oscar Feire, 2500 – ao lado do Metrô Sumaré
Informações: (11) 3065-4333 e atendimento@unibescultural.org.br
Funcionamento: De segunda a sábado, das 10h às 19h
Acesso para deficientes
Ar condicionado
WI FI livre
Tem local para comer
Não tem estacionamento – sugerimos o uso de transporte público
(#Envolverde)

Blairo Maggi, constrangimento na COP 22

por Reinaldo Canto — publicado 21/11/2016 09h43
Em encontro mundial sobre mudanças climáticas, ministro da Agricultura de Temer ironizou mortes em conflitos agrários

Marcelo Camargo / Agência Brasil
Blairo Maggi
Maggi: na COP 22 ele reconheceu o aquecimento global, mas chocou ativistas com algumas de suas declarações
De Marraquexe, no Marrocos
Blairo Maggi ajudou, na COP 22, realizada em Marraquexe, no Marrocos, a moldar a nova imagem internacional do Brasil sob o governo de Michel Temer. Durante o chamado Segmento de Alto Nível do encontro, que debate as mudanças climáticas no mundo, a chefia da delegação brasileira esteve a cargo do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, mas quem se “destacou” foi o ministro da Agricultura.
Na quinta-feira 17, Maggi causou mal-estar ao contestar as mortes ocorridas em conflitos no campo. O Brasil lidera o ranking de assassinatos, segundo a ONG Global Witness, com 50 mortes em conflitos agrários em 2015.
“Só 50”
Para o ministro, esses números não refletem a realidade, pois muitas dessas mortes foram causadas por motivos que nada teriam a ver com ativismo ou disputa por terras, “quando se vai fundo nas investigações, descobre-se que as razões das mortes foram outras”, disse, citando “problemas de relacionamento” como um dos motivos.
Mais grave, Maggi ironizou as mortes. Em uma aparente confusão com o número mundial de assassinatos em conflitos agrários (185 segundo a Global Witness), Maggi disse ter visto uma “redução” de um dia para o outro.
“Fico feliz em saber que de ontem para hoje morreram menos 150 ambientalistas, porque ontem ouvi que eram 200 por ano e agora diz aqui que foram só 50.”
Aquecimento global
Em suas intervenções, sejam elas para o público brasileiro ou em painéis com representantes estrangeiros, Maggi foi bastante veemente em defender o agronegócio brasileiro e discordar de posicionamentos caros aos ambientalistas.
Apesar de reconhecer as mudanças climáticas como algo “comprovado cientificamente e um grande risco para a produção de alimentos no país” e sentir na pele, como proprietário rural, “estão quebrando safras como eu nunca vi antes” e refletir sobre o futuro “como meus filhos e netos vão fazer agricultura nesse clima?”, Maggi não deixa de contestar as reservas legais definidas no Código Florestal. O ministério comandado por ele é um dos principais guardiões dessa legislação.
“Imagine um hotel que tenha 100 quartos, mas que só possa comercializar 20 unidades. As outras 80 ele tem que manter fechadas”, fazendo menção às propriedades rurais existentes no bioma amazônico que precisam manter 80% de suas áreas preservadas. O ministro só não explicou porque uma lei como essa seria válida para um hotel. Quais razões haveria para uma interdição absolutamente sem nexo? Já a definição das regras para as reservas legais foi exaustivamente debatida no Congresso Nacional e faz todo o sentido no contexto ambiental.   
O ministro tem reclamado do posicionamento dos países ricos quanto à falta de reconhecimento dos esforços brasileiros para conservar áreas florestais e, portanto, contribuindo para evitar a emissão de gases de efeito estufa.
Segundo ele, “outros grandes produtores de alimentos como Estados Unidos, Argentina e Canadá não possuem reservas legais como nós, mas isso não nos traz vantagens”. Nesse caso, Maggi considera um problema assumirmos esse “ônus”, enquanto outros países não o fazem e desconsidera os serviços ambientais prestados pelas florestas, inclusive, para a produção de alimentos.
Mesmo representando o governo que recentemente ratificou o Acordo de Paris (assinado por Temer) Blairo Maggi se mostra preocupado com o que o Brasil se comprometeu. “De onde virão os 40 bilhões de dólares que deverão custar a restauração de 12 milhões de hectares e a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens?”.
Neste caso, Maggi é acompanhado pelos ambientalistas, que também têm dúvidas quanto à origem dos recursos para uma demanda dessa proporção.
Para não parecer um estranho no ninho ao fazer questionamentos às ações previstas para o combate às mudanças climáticas no Brasil e no mundo em plena conferência do clima, o ministro tentou estender as mãos aos ambientalistas, cuja ação ele faz questão de elogiar, “produtores e ambientalistas agora andam juntos”.
Então, estamos todos no mesmo barco. Entendido?

COP22: ONU lança alerta

Por Reinaldo Canto, de Marrakech, especial para a Envolverde e para o Projeto Cásper Líbero na COP 22 – 
Empregos, crescimento e geração de renda serão beneficiados diretamente pelos esforços em conter as mudanças climáticas.
O PNUD – O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento acaba de lançar aqui no Marrocos um relatório* que estuda as oportunidades em cumprir o Acordo de Paris, ou seja, limitando o aumento médio da temperatura do planeta em 1,5° C.
O relatório conclui que o crescimento econômico medido pelo PIB seria até 10% maior, se esse limite for mantido, o que representa cerca de US$ 12 trilhões a mais, se for comparado a manter os atuais índices de emissão dos gases de efeito estufa que podem contribuir para um aumento de 3 ° C ou mais.
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Para o PNUD, o a meta prevista no acordo global de 1,5 ° C é viável e necessária, para tanto será importante aumentar os esforços para zerar as emissões e chegar até o final do século a 100% no uso de energias renováveis.
Dados inéditos apontados pelo estudo afirmam que poderiam ser criados 68% mais empregos mantendo o limite do aquecimento global do que caso o 1,5º seja ultrapassado.
Segundo o Dr. Michiel Schaeffer, co-diretor da Climate Analytics e co-editor do relatório, os impactos e riscos geofísicos e biológicos aumentam significativamente de 1,5 ° C para 2 ° C. “Tanto para os países desenvolvidos como em desenvolvimento, os danos muito menores causados pela mudança climática em um caminho de 1,5 ° C significam que as oportunidades de crescimento econômico podem ser preservadas em grande parte. Na ausência de ação climática, essas oportunidades seriam substancialmente reduzidas até a década de 2040 “.
Já Matthew McKinnon, Gerente de Projeto do PNUD, afirma que as conclusões do relatório deixam claro que o corte de emissões prejudicariam o crescimento. “É exatamente o oposto: a mudança climática é tão ameaçadora para o crescimento que enfrentá-la tornou-se uma das maiores responsabilidades de desenvolvimento que enfrentamos”, acrescentando que “o desafio agora é garantir o acesso generalizado a toda a gama de benefícios de uma ação climática agressiva.” (#Envolverde)
*O relatório está disponível neste link.