04 julho 2019

SER VOLUNTÁRIO NO BRASIL AINDA É PARA POUCOS!

Por Reinaldo Canto – 
Iniciativas de empresas como a Pernod Ricard e seu Responsib’All Day contribuem para tentar mudar essa realidade
O brasileiro é reconhecido por ser um povo amigável e solidário, mas quando se trata de dedicar algumas horas para atividades de voluntariado, estamos bem distantes dessa visão. Segundo pesquisa de 2018 realizada pelo IBGE 7, 4 milhões de pessoas ou 4,4% da população acima de catorze anos participou de alguma atividade voluntária, ou seja, realizou um trabalho não obrigatório de não menos que uma hora sem benefícios ou trocas, sendo que as mulheres são mais voluntárias (5,1%) do que os homens (3,5%) nesse total. Só para se ter um dado de comparação, mais de 14% da população dos Estados Unidos praticam o voluntariado, nada menos que dez pontos percentuais acima dos registrados em nosso país!
Para Rosângela Melato, consultora em gestão, especialista em voluntariado corporativo e diversidade da Mosai&co, há muito espaço para que esses números possam melhorar significativamente sendo que as empresas tem um papel muito importante para alavancar esse processo. Mas para ela é preciso estar atento a alguns aspectos fundamentais, “as atividades precisam dialogar com o core business da empresa, porque caso contrário pode ser um desestímulo para o seu colaborador que pode achar que está perdendo tempo ou negócios para fazer outra atividade. Voluntariado estrutura marca, contribui para ampliar as capacidades de seus funcionários e também para seu corpo gerencial. Isso precisa ser entendido por isso da importância da estreita relação com o negócio da empresa”.
FAZENDO A LIÇÃO DE CASA
A 9ª edição do Responsib’All Day cumpriu à risca o que estabelece as boas práticas do voluntariado. Realizado neste mês de junho pelos mais de 19 mil funcionários da Pernod Ricard (fabricante de bebidas como Chivas Regal, Ron Montilla e vodka Orloff) em 87 países, o projeto promoveu atividades ligadas ao conceito de economia circular e gestão de resíduos, ou seja, uma causa positiva e totalmente integrada aos negócios cotidianos da empresa.
E aqui no Brasil, a empresa literalmente parou em todas as localidades em que possui colaboradores, um total de 450 pessoas. Os mais de 200 da empresa, em São Paulo, foram até o Centro Paulus, no bairro de Parelheiros, região carente no extremo sul da capital paulista e participaram de atividades como workshops e oficinas que tinham como foco o desenvolvimento de novos produtos – com alto valor agregado – a partir de vidro reutilizado de garrafas vazias das marcas comercializadas pela empresa. As oficinas ministradas pela artista plástica Adriana Yazbek, pelo arquiteto Gustavo Calazans e pelo produtor orgânico Árpad Spalding trabalharam no desenvolvimento de peças como bijuterias, luminárias, bandejas, painéis e peças de revestimento, entre outros, produzidos pelos funcionários e, posteriormente, colocados à venda na região e o dinheiro arrecadado ficando disponível para apoiar os trabalhos da instituição local.
Já em outras plantas da empresa em Resende (RJ) e em Suape (PE), nas quais trabalham 150 colaboradores, além de repetirem a atividade de São Paulo, os funcionários também botaram a mão na massa para produzir itens a partir de materiais das unidades que iriam ser descartados e também sobras de tecidos de outras indústrias. Todos os produtos confeccionados nesse dia, como almofadas, foram encaminhados para organizações sociais da região. Até mesmo funcionários de áreas de vendas da empresa em outras regiões e estados distantes das fábricas também participaram do Responsib’All Day  visitando restaurantes, bares e estabelecimentos comerciais para falar sobre economia circular, reaproveitamento e transformação de materiais, com divulgação, inclusive, de um drink assinado por um  mixologista (especialista no preparo de bebidas e coquetelaria), feito a partir de cascas e matéria prima orgânica que seria descartada.
Segundo Sirley Lima, Diretora Jurídica e de Recursos Humanos & Sustentabilidade da Pernod Ricard Brasil, a realização do Responsib´All Day tem sido um sucesso, “desde 2010 ele representa uma das datas mais importantes para a Pernod Ricard e todos os seus funcionários no mundo. Desde a sua fundação, a empresa tem a responsabilidade social em seu DNA, com um mindset de que uma empresa tem que cumprir seu papel socioambiental, E esse é o grande legado que queremos deixar ao longo de todos esses anos. Ficamos muito felizes em poder atuar em prol de diversas questões relacionadas à sustentabilidade socioambiental”.
Quanto à edição de 2019, Sirley acredita que foi possível sensibilizar os colaboradores e parceiros para a importância e os significados da economia circular e da correta gestão de resíduos. “Por mais que a gente já faça campanhas ao longo do ano com esse foco, com o Responsib´All Day a gente consegue impactar de maneira mais objetiva. Isso porque todos os colaboradores estão focados naquela atividade. É completamente diferente do que falar com eles no dia a dia de trabalho, quando a cabeça, às vezes, está pensando nas entregas corporativas”, explica a diretora da Pernod Ricard.
Perguntada se parar a empresa um dia inteiro para atividades de voluntariado não acarreta prejuízo, Sirley Lima foi enfática, “Pelo contrário! Ter um dia inteiro dedicado por nossos colaboradores a um pilar fundamental da estratégia do negócio engaja, aproxima do campo e traz um senso de orgulho incrível. Ver a transformação que podemos fazer nos lugares e comunidades, desenvolvendo seus colaboradores e parceiros, protegendo o meio ambiente e compartilhando valor com todos, faz com que os nossos talentos se lembrem a cada ano do nosso propósito”.
De toda maneira os idealizadores do Responsib´All Day tem consciência de que o trabalho não pode parar, que é algo constante. “Um resultado muito positivo que enxergamos é que as nossas fábricas, por exemplo, possuem um índice de quase 100% de reaproveitamento e reciclagem de resíduos sólidos. Esse e outros esforços, quando se juntam, geram resultados importantes para toda a sociedade”, resume a executiva.
Além do Responsib´All Day, a Pernod Ricard Brasil também possui um programa de voluntariado que é ativo o ano todo. São mais de 61 funcionários-voluntários, que doam mais de 410 horas do seu tempo – no horário de trabalho. O grupo promove cinco iniciativas por ano. Uma delas, inclusive, contemplou a construção de uma biblioteca.
Nada melhor do que exemplos a serem seguidos em prol de benefícios comuns para todos como explica a consultora da Mosai&co, Rosângela Melato, “como indivíduos somos uma sociedade linkada somos pontos de uma rede e se um ponto dessa rede não se desenvolve a rede fica frágil. Devemos pensar voluntariado como um apoio dessa rede. Há programas para se aprender a ser voluntário e aplicar o voluntariado. Empresas gostam de contratar pessoas que tiveram experiências de voluntariado”.
Uma sociedade em que mais pessoas e empresas exerçam o voluntariado certamente será mais solidária, justa e socioambientalmente responsável.
(#Envolverde)

03 maio 2019

Municipalistas querem cidades produtivas e antenadas com o século XXI

ENTREVISTA: Carlos Cruz, presidente da Associação Paulista de Municípios
Por Reinaldo Canto e Rita Nardy, especial para a Envolverde

Carlos Cruz, presidente da Associação Paulista de Municípios. Jornalistas Reinaldo Canto e Rita Nardy
Ao longo do tempo a gestão pública em todos os níveis, mas principalmente a municipal, mais próxima do cidadão, tem sofrido uma crescente pressão. As exigências por eficiência e resultados alcançaram altos níveis demandando os prefeitos a serem mais ousados ao mesmo tempo que sejam capazes de cumprir à risca o que determina a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Os atuais prefeitos completaram seus dois primeiros anos de mandato tendo ainda outros dois anos pela frente. Ao mesmo tempo, assumiram novos executivos no âmbito estadual e federal. Serão, portanto, novos desafios no relacionamento com governador, secretários, presidente e ministros. Em tempos de dinheiro curto as tarefas se tornam cada vez mais complexas e os espaços de manobra assim como de orçamento ainda mais curtos.
Os velhos problemas também vão continuar a rondar as administrações municipais em meio à torcida pela recuperação econômica e orçamentos enxutos que precisam dar conta de atender às expectativas de suas respectivas populações.
Enquanto isso as ameaças vinculadas às mudanças climáticas e o aquecimento global; a segurança hídrica da população; o déficit histórico do saneamento básico; o desmatamento e a necessidade de adequação ao Código Florestal; a mobilidade urbana e a cada vez mais complicada gestão de resíduos, para ficar em alguns dos principais problemas ligados à pauta da sustentabilidade, não dão trégua. Esse é o complexo e desafiador cenário que está à frente de Carlos Alberto Cruz Filho, presidente da APM, a Associação Paulista de Municípios até o final de seu mandato em 2020. A entidade que não possui fins lucrativos completou 70 anos em 2018 e já foi presidida por políticos conhecidos como o ex-prefeito da capital, Gilberto Kassab e o ex-governador Orestes Quércia.
Para Cruz que já foi vereador e vice-prefeito de Campinas, desde 2016 na presidência da Associação Paulista de Municípios (APM), as cidades precisam ser mais inteligentes, antenadas com as demandas do Século XXI e capazes de atrair novos investimentos tendo como ponto de partida a vocação do município, ou seja, o que ele possui de competência para produzir. Para ele todos esses fundamentais enfrentamentos caminham lado a lado com uma bandeira histórica da APM que é a repactuação federativa que garanta mais justiça na distribuição dos recursos.
“VAMOS LUTAR SEM TRÉGUA PELA REFORMA TRIBUTÁRIA EM APOIO ÀS GESTÕES DOS PREFEITOS DAS 645 CIDADES DO ESTADO DE SÃO PAULO INDEPENDENTEMENTE DA COLORAÇÃO PARTIDÁRIA OU IDEOLÓGICA”.
Quais as suas prioridades a frente da APM?
CC – Mais do que prioridades nós temos bandeiras que em primeiro lugar é a bandeira histórica que é a Reforma Tributária. Temos uma profunda preocupação com a desigualdade com que os municípios são tratados na arrecadação dos tributos federais. Hoje 70% ficam com a União, 20% com Estados e apenas 10% vão para os municípios, uma completa inversão da pirâmide. Essa concentração na esfera federal faz com que os prefeitos virem pedintes tendo que ir constantemente à Brasília com o “pires na mão”. Vale lembrar sempre que cidadão habita a cidade, não o Estado e nem a União.
A segunda é implementar o artigo 23 da Constituição de 88 (que estabelece as normas de cooperação entre a União, Estados, Distrito Federal e Municípios). E também apoiamos a Reforma da Previdência. Ela é absolutamente necessária ou conseguimos fazer o equilíbrio das contas públicas ou as próximas gerações não terão garantias.
O Sr. tem buscado se aproximar de Câmaras de Comércio internacionais, o que pretende com isso?
CC – Temos conversado muito com muitas empresas estrangeiras. Chinesas, coreanas, até de Israel que tem interesse em saber o que os municípios paulistas têm a oferecer. O agrobusiness em São Paulo, por exemplo, é muito forte. Queremos saber o que eles querem nos vender: iluminação pública? Usina de tratamento de lixo? Parques de captação de energia solar, eólica? Segundo, queremos saber o que você (empresa) precisa pra se instalar aqui. Logística, mão de obra, incentivos fiscais? E, por fim, o que você quer comprar e nós podemos vender? Os diferentes municípios do estado têm vocações e produções bastante diversas.
Nós sabemos que existe, um caminhão de dinheiro no exterior para ser colocado no Brasil. Investidores que esperam principalmente o equilíbrio fiscal para colocar dinheiro aqui. O governador (João Dória, eleito no final de 2018) tem buscado caminhos para atrair investimentos em várias áreas para produção.
Como o Sr. pretende conseguir fazer isso na prática?
CC – Primeiramente por meio do nosso Congresso Estadual de Municípios que será realizado entre 14 e 19 de outubro em Campos do Jordão. Vamos conversar no nosso Congresso com essas câmaras e essas empresas. Mandei convite para o governo chinês participar do Congresso e ele está autorizando empresas chinesas a vir. Muitas empresas chinesas fecharam por questões de passivos ambientais. Mas essas empresas fechadas tem que procurar algum lugar no planeta e o governo chinês apoia essa mudança. Tendo, obviamente que se adequar as leis ambientais nesses locais. Estamos conversando com os prefeitos para que façam parques industriais, condomínios industriais, que possam receber 50 indústrias dessas. Estamos de olho nesse mercado.
Como pretendem identificar essas potencialidades?
CC – Estamos criando uma plataforma de comércio digital para dar ao produtor a possibilidade de vender pelo menor preço, uma Câmara de Comércio e Indústria dos Municípios Paulistas. Países com fortes necessidades de consumo como China com seus mais de 1 bilhão e 300 milhões, a Nigéria que tem 200 milhões de habitantes. Eles querem comprar nossos alimentos. Por isso, nós queremos ajudar os prefeitos a ajudar o seu produtor a vender seus produtos. Nós queremos que essa plataforma seja um grande ambiente de informação. Cada município deverá alimentar essa base de dados. Se tem uma demanda internacional de uma câmara de comércio ou um país necessitando de um produto, a plataforma irá informar qual município ou quais cidades possuem esse produto. Muitos produtores chegam a jogar fora produção, pois não alcançam preço e não tem pra quem vender. Isso a plataforma quer resolver.
O mercado global, principalmente os governos europeus tem critérios ambientais e sustentáveis como um grande diferencial competitivo que impactam nessa relação e fazem diversas exigências para a compra de produtos. Por outro lado, como aumentar a produção, garantir a qualidade e também os impactos que serão grandes aos ecossistemas? Importante também será adotar padrões de qualidade do produto e de como ele é produzido, incluindo mão de obra qualificada. Como resolver todas essas questões?
CC – Como eu disse antes essas empresas que vierem pra cá terão primeiramente que se adequar as nossas leis ambientais. No caso dos nossos produtores precisamos de parcerias como com o Sebrae que realiza workshops, cursos de produtividade para os produtores. Estamos numa fase embrionária ainda. Para atender o mercado no exterior, essa atuação do Sebrae é muito importante. Estabelecer esse padrão internacional. É uma questão de qualificação, capacitação, consciência e competitividade. O melhor produto pode ficar comprometido por um problema identificado lá no começo da cadeia de produção. Isso precisa ser identificado e solucionado com rapidez.
Qual a visão dos prefeitos paulistas sobre a sustentabilidade, qualidade de produtos. Além de pensar nas empresas como capacitar nossos gestores públicos para essas questões?
CC – Isso existe aos montes já temos vários cursos de capacitação. O que temos de criar são novas  parcerias com universidades e entidades.
O gestor público já está preparado para esse novo cenário?
CC – Se ele não está preparado, ele tem que se preparar, pois as exigências de mercado. Nós queremos ajudar o prefeito a ajudar o produtor da sua cidade. Queremos ampliar o círculo de atuação da sociedade que ele participa. Não só cuidar de tapar buraco e resolver o problema da iluminação das ruas. Precisa ir além, uma atuação social mais forte, de liderança na sua cidade. Chamar os produtores para reforçar as suas vocações. Nós vamos dar a ele subsídios para que ele possa deslanchar nessa visão.
Hoje é deficitário na sua experiência?
CC – É sim, falta consciência. Mas existe uma razão. Não é deficiência por falta de vontade e iniciativa. É por falta de recurso.
Existem políticas públicas já estabelecidas no âmbito federal em que os recursos estão disponíveis para os municípios. Mas as prefeituras não conseguem receber esses recursos por falta de projetos.
CC – É isso que eu ia dizer. Essa é uma outra questão. Dinheiro tem, mas não tem projeto, mas isso é facilmente explicável. Campinas, por exemplo, está fazendo um BRT, um corredor enorme. O estado de São Paulo tem 645 municípios. Se pedir pras pessoas enumerarem vão lembrar das  15 principais. Aí se pensar bastante vão talvez chegar, com muito esforço a 45 cidades. Depois esgotou. Sobraram 600 cidades. O que quero dizer com isso é que 75%, 80% dos municípios tem menos de 20 mil habitantes. Aí esse município precisa nomear um secretário de educação, de saúde, de habitação, de esportes, precisa conseguir um gestor competente para a iluminação pública. Onde esse prefeito vai achar pessoas qualificadas em sua cidade para fazer a gestão disso? E esses secretários vão ter que achar outras pessoas para montar suas equipes.
Não acha que esse trabalho em rede na plataforma pode ajudar?
CC – Na plataforma não, mas em cursos. Temos muitos cursos de capacitação e eles precisam ser ampliados.
As Prefeituras não podem trabalhar juntas para tentar solucionar problemas comuns?
CC – É uma tendência. Tem aí os consórcios, pois muitos dos problemas não conseguem resolver sozinhos. Nem pequenos, nem mesmo os grandes.
São casos que extrapolam a atuação de uma única cidade como na gestão da água e dos resíduos sólidos
CC – Gestão das águas, por exemplo, eu firmei um protocolo, convênio de cooperação técnica com o Conselho Regional de Administração que tem um trabalho muito bom nessa área. Eles criaram um programa chamado Gestão das Águas Paulistas. Ferramenta de gestão que visa combater o desperdício da água. Isso é um exemplo de que existem vários organismos que estão preocupados com isso. São coisas que correm em paralelo. Tudo isso vai cair inevitavelmente na falta de recursos. Mesmo que o município tenha essas soluções consorciadas. Tem muito investimento pra vir, por exemplo, na área de saneamento. Os prefeitos estão pressionados. Eles têm prazos a cumprir. A APM possui uma cadeira no CONSEMA (Conselho Estadual de Meio Ambiente) representando os municípios isso há mais de 20 anos.
Como a APM faz a escuta do cidadão?
CC – O Dr. Ulysses Guimarães tinha uma frase: “coitado do político que não sabe interpretar o recado das urnas”. Você tem que pegar o resultado da eleição e interpretar o recado que foi dado ali, muitas vezes nas entrelinhas. Nós temos essa preocupação de fazer essa interpretação. E no país foi dado esse recado da mudança. E nós já sabíamos disso antes, sabe por que? Vou dar um dado que muito provavelmente vocês não saibam: Na eleição municipal de dois anos atrás, 72% dos prefeitos de São Paulo nunca tinham sido nada e nas Câmaras de Vereadores foram eleitos 84% novos. Então a renovação já estava esboçada na eleição municipal. Nós já tínhamos identificado esse sentimento de descontentamento com o status quo.
Agora respondendo a sua pergunta, nosso público alvo é o gestor público e não o cidadão. Quem fala com o cidadão é o prefeito e nós não interferimos na fala dele. Cada um sabe onde o calo aperta. Nós damos/apontamos caminhos sem interferir na liberdade que ele tem de cumprir os compromissos que ele assumiu. Ele foi eleito porque propôs alguma coisa que foi aceita pela maioria. Nosso papel é dar subsídios para que cada vez mais ele tenha uma excelência na gestão. O cuidado de fazer a sintonia fina com o cidadão é dele, prefeito.
Quando tivemos a grande crise hídrica e “descobrimos” que a água é fundamental, pois até indústrias pararam de produzir. Como a APM reagiu na época? E os prefeito como reagiram?
CC – Essa é uma questão muito específica. Nós ficamos observando. Ficamos atentos a abertura de canais de representação coletiva. Interesses individuais até atuamos como parceiros, mas o interesse coletivo é que prevalece. Discutimos isso no Consema, ainda governo Alckmin. Fizemos um papel de intermediário. Secundário, pois não temos essa ingerência. Nós estamos atentos ao movimento dos consórcios.
Exemplo é a questão do lixo, transformando em energia, por exemplo. Haverá discussões como essa no nosso Congresso. Muitas empresas com tecnologias para resolver essas questões. Nós buscamos disponibilizar para os prefeitos tudo o que de mais moderno existe à disposição no mercado, mas quem vai decidir se quer ou não é ele, nós não interferimos de maneira nenhuma.
Essa é a credibilidade da Associação Paulista de Municípios de que não abrimos mão. Pois, quando ligo para um prefeito todos me atendem e por que? Porque tenho notícia que interessa a ele, mas isso não vale para intermediar trabalho de empresa. As empresas devem oferecer seus produtos e serviços em nosso Congresso onde elas pagam pelo espaço. Eu digo pra essa empresa: “em cinco dias você terá oportunidade de falar com pelo menos 200 prefeitos, aproveite”. Não faço negócios, disponibilizo o espaço e novas tecnologias. Quem vai decidir ou não é o prefeito.
Para o que as cidades paulistas precisam estar preparadas?
CC – A cidade precisa entrar no século XXI, as cidades precisam ser cada vez mais cidades inteligentes, seja na mobilidade urbana, na identificação de um vazamento de água, mas pra ter isso precisa cabear a cidade com fibra óptica. Nós fazemos essa indicação. Com wifi, a internet das coisas, a conexão total, conectar com tudo. Temos consciência disso, já fazemos muita coisa e vamos fazer mais!
Qual a mensagem que a APM passa para os prefeitos quanto aos cuidados com os ativos ambientais do estado. Seja a água, seja economia circular, reciclagem, seja qualidade do ar e nossas florestas?
CC – Primeiro é a questão da consciência. Nós estamos sempre plugados com as tendências cada vez maiores. Quando teve uma inversão térmica e uma forte nevasca nos Estados Unidos o Trump não reconheceu que aquele era um fenômeno extremo e violento, ele disse: ”cadê o aquecimento global? Olha a minha rua cheia de neve”. Aí você pergunta por que os chineses ultrapassaram os Estados Unidos? A explicação é simples: enquanto o chinês está preocupado em colonizar o lado escuro da lua, ele está preocupado em construir um muro. Isso não dá!
Consciência, por mais que o país queira a mudança, o nosso presidente não se conscientizou ainda que não foi ele que foi eleito. Foi um forte sentimento de mudança e é isso que tentamos passar para os nossos prefeitos todos os dias, inclusive nessas questões ambientais.
(#Envolverde)

11 abril 2019

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DESPERTA FASCÍNIO E TEMOR NO BRASIL, DIZ PESQUISA


A IA está entre nós e o mundo será, em parte, governado pelos algoritmos

Por Reinaldo Canto*
Talvez não seja como num passado recente quando o temor quanto ao avanço da chamada inteligência artificial estava na possibilidade de o ser humano ser dominado por máquinas e nos tornaria a todos dispensáveis. Esse cenário já foi bem explorado, entre outros, pelo cinema e pela literatura.
O certo é que o avanço da IA ao mesmo tempo que abre enormes possibilidades também apresentam temores diferentes da ficção, mas não menos desafiadores e preocupantes.
Isso foi o que constatou a pesquisa realizada pela Market Analysis e cujos resultados estão sendo publicados com exclusividade por CartaCapital.
No início de dezembro do ano passado foram realizadas entrevistas com 513 adultos usuários da internet no país para entender e identificar as percepções da influência da inteligência artificial em diversas áreas e seu impacto no futuro das profissões.
Questões como a robotização em atividades industriais; a eficácia dos algoritmos nos atendimentos do dia a dia e até mesmo nas vendas; seu uso nos diagnósticos médicos e até mesmo nas investigações policiais e na Justiça.
São inúmeras as suas possibilidades, assim como as dúvidas que nascem da utilização maciça da inteligência artificial impactando a todos seja de maneira mais direta ou indireta. E, claro, o futuro de muitas profissões colocadas em xeque!
A questão do trabalho parece ser o que mais preocupa os brasileiros de maneira geral. A pesquisa revelou que, conforme têm sido abordado com frequência pela mídia, algumas profissões tenderão a simplesmente desaparecer. Sete em cada dez brasileiros entrevistados acreditam que trabalhadores da indústria deverão ser cada vez mais substituídos por máquinas. Uma tendência que já vem sendo observada há algum tempo em linhas de produção ocupadas por robôs. Mas não só. Perguntados sobre outras profissões, a enquete constatou que mais de metade dos pesquisados acredita que contabilistas, faxineiras, motoristas e pesquisadores de mercado, entre outros, estão com suas profissões em sério risco. Já 1 a cada 3 ou 4 entrevistados crêem que até mesmo jornalistas, professores, enfermeiras e mesmo policiais podem desaparecer. Para os entrevistados, profissões como médicos, advogados e terapeutas aparentam estar menos ameaçadas.
Interessante notar que os riscos apontados pela pesquisa colocam a inteligência artificial atuando tanto nas atividades de produção tipo “mão na massa” como na coleta e análise de dados. Um leque amplo e profundo nas quais as novas tecnologias podem atuar.
Menos assustador e mais positivo quanto às suas consequências, a pesquisa revela as boas expectativas que as pessoas nutrem quanto à influência dessa inteligência artificial em áreas como a saúde, segurança e Justiça. 59% dos ouvidos pela pesquisa acreditam que a IA pode auxiliar os médicos, mas não substituí-los. Situação semelhante no que se refere ao sistema judicial. Apesar de sua contestada eficiência, de cada 10 consultados seis demonstram receio na fria decisão apresentada por dados e números enquanto apenas 27% dos entrevistados conferem apoio a uma realidade em que a inteligência artificial ditaria as sentenças judiciais. Já para a substituição de policiais, 31% ou 1/3 das pessoas que participaram da enquete consideram o uso da IA como uma boa alternativa às falhas humanas cometidas pelos representantes da lei.
Uma das menores resistências encontradas na pesquisa se refere à mobilidade urbana, tendo como pano de fundo a irresponsabilidade de motoristas que causam anualmente mais de 50 mil mortes no país. Mais de metade dos entrevistados se mostrou favorável à substituição de policiais rodoviários e motoristas por carros autônomos.
Para Fabián Echegaray, diretor-geral da Market Analysis e responsável pela pesquisa, “na medida em que cresça a frustração com o desempenho de alguns profissionais (médicos, motoristas, cuidadores) e algumas instituições (clínicas, polícia militar, justiça), e o discurso da efetividade e ganhos econômicos da robotização se popularizar, é provável imaginar um apoio maior para iniciativas que defendam um mundo governado por algoritmos”.
Difícil será imaginar que esse cenário realmente não se aprofunde. A inteligência artificial parece que veio mesmo para ficar e o que precisamos é que ela traga reais benefícios e não seja responsável por amplificar ainda mais problemas como a indiferença às questões sociais e a exacerbação a alguns dos principais desafios da humanidade, entre eles, as mudanças climáticas e a crescente radicalização ideológica.

*Exclusiva para Carta Capital



25 março 2019

CARTA DE REPÚDIO AO DESMONTE DO MEIO AMBIENTE E AGRICULTURA NO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO PELA GESTÃO JOÃO DORIA

Desde o início do ano, acompanhamos o desmonte de políticas públicas importantes nas três esferas do governo: Federal, Estadual e no Município de São Paulo. Na atual gestão do governador João Doria, o processo de reestruturação tem sido conduzido sem qualquer participação das equipes técnicas e administrativas das áreas afetadas e tampouco do restante da sociedade. A fusão de três Secretarias (Meio Ambiente, Saneamento e Recursos Hídricos e Energia e Mineração), que deu origem à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA), no comando do Secretário Marcos Penido, representa um enfraquecimento da pauta ambiental. Na já rebaixada Subsecretaria de Meio Ambiente, sob a gestão de Eduardo Trani, os Decretos n° 64.131 e n° 64.132, de 11/03/2019, extinguiram a Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais (CBRN), pulverizando e submetendo suas atribuições uma parte à agora chamada Coordenadoria de Fiscalização e Biodiversidade (CFB/SIMA) e a outra parte à Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SAA), especificamente à Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), forma como passou a ser denominada a tradicional Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI/SAA). Desta forma, em um mesmo ato, desvalorizou e rebaixou a Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e os trabalhos de estímulo à Biodiversidade Paulista e tirou o foco das ações de Fiscalização Ambiental, não sendo possível assegurar, nesse novo contexto, a efetiva proteção e recuperação da biodiversidade e o cumprimento da Política Estadual do Meio Ambiente. Acreditamos que a produção rural e a conservação ambiental são interdependentes, e o desenvolvimento sustentável na zona rural será resultado do trabalho conjunto entre a SIMA e a SAA, cada uma com suas atribuições, vocação e missão. Na reconfiguração do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema), por meio do Decreto n° 64.122/2019, a presidência passou a ser ocupada pelo Secretário da SIMA, que representa as três antigas Secretarias, deflagrando um claro conflito de interesses, por serem o licenciado, o licenciador e o fiscalizador a mesma pessoa jurídica. Ainda, não houve garantia de participação da área responsável pela Política de Biodiversidade (Decreto Federal n° 4.339/2002) no Consema, uma vez que não se previu assento específico para o Departamento de Fomento à Proteção da Biodiversidade da CFB/SIMA ou o Departamento de Biodiversidade da CDRS/SAA. O enfraquecimento da CATI, não só pela mudança do nome para a nova CDRS, retirando o termo “assistência técnica integral” do nome da coordenadoria, mas também pelos rumores de que haverá redução de Escritórios de Desenvolvimento Regional e fechamento e/ou transferência parcial ou integral das atuais 594 Casas de Agricultura para os Municípios, irá afetar milhares de pequenos e médios produtores rurais com essa redução da assistência técnica e extensão rural. Além disso, são 52 anos de existência de uma instituição renomada e de uma marca amplamente conhecida pela sociedade, que agora perde sua identidade. O trabalho técnico-educativo da extensão rural é desenvolvido tanto pela CATI, como pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), com foco principalmente na agricultura familiar. O Programa Microbacias II, o Programa Paulista de Agricultura de Interesse Social (PPAIS), o Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (FEAP), o trabalho de apoio técnico e social a milhares de famílias da agricultura familiar, dos assentamentos rurais e das comunidades quilombolas, além do trabalho de regularização fundiária, são alguns dos programas de excelência desenvolvidos por ambas as instituições. Negar ou esconder a excelência dos resultados alcançados serve para justificar as propostas de desmonte destas áreas. A Fundação Itesp corre o risco de ter alguns de seus escritórios regionais - Andradina, Promissão e Martinópolis, por exemplo - fechados em breve. Em relação aos institutos de pesquisa do Estado de São Paulo ligados à SAA - o Instituto de Pesca (IP) e o Instituto de Zootecnia (IZ) - o Governador e seu Secretário Gustavo Junqueira da SAA têm a proposta de extinção de ambas as instituições, por meio de uma nova organização a ser criada. A extinção do IP representa a perda de um legado construído ao longo de 50 anos. A convergência temática, por meio da fusão entre os dois Institutos, é apenas aparente, já que a produção animal aquática apresenta especificidades muito distantes das de produção animal terrestre. O IP vem atuando no desenvolvimento de tecnologias de produção do pescado marinho e de espécies de água doce e em estudos ecológicos e ambientais, colaborando com a preservação e proteção de espécies nativas marinhas e continentais. Destaca-se também a orientação e subsídios técnicos às colônias de pescadores, às universidades e aos diferentes órgãos e instituições governamentais em nível estadual e federal. Como estas duas Instituições com pesquisadores e atribuições tão distintas podem ser unificadas sem participação direta do corpo técnico? O governo estadual vem “acelerando” a precarização e o enfraquecimento de serviços ao promover uma desestruturação destas instituições, que são vagamente justificados por uma suposta economia dos recursos públicos. Tudo isso está sendo feito sem um mínimo de diálogo com os principais agentes envolvidos. Somos sim a favor de mudanças, quando elas se adequam aos novos tempos e promovem melhorias e ganhos à sociedade e ao meio ambiente, e para que isto ocorra, é necessária uma construção conjunta e participativa entre gestores, equipe técnica e administrativa e sociedade, caso contrário os cidadãos que dependem dos serviços prestados pela CATI, CBRN, Itesp, IP e IZ serão negativamente afetados. Já podemos ver as primeiras consequências negativas da falta de transparência e participação das áreas afetadas, por exemplo: na Resolução Conjunta SAA/SIMA n° 01, de 12-3-2019 que detalhou as atribuições de cada Secretaria, foi incluído erroneamente projeto que não existe mais e não foram citados projetos e assuntos em curso atualmente na SIMA. O gabinete da SAA mostrou total desconhecimento sobre as estruturas básicas - tais como computadores, configuração de rede, plataforma de sistema, veículos e armários - para o prosseguimento dos trabalhos desenvolvidos pelos departamentos transferidos. Esses problemas poderiam ter sido evitados se houvesse transparência e diálogo com a equipe técnica-administrativa das áreas envolvidas, antes da publicação dos Decretos ou da transferência das equipes, prevista para o próximo dia 25/3. Todos unidos contra o desmonte e a favor do fortalecimento da pesquisa, do desenvolvimento sustentável da agricultura, produção animal aquática e terrestre, da assistência técnica e extensão rural, da biodiversidade e meio ambiente!

São Paulo, 22 de março de 2019.

AEAESP - Associação de Especialistas Ambientais do Estado de São Paulo

EPAESP - Executivos Públicos Associados do Estado de São Paulo

APAER - Associação Paulista de Extensão Rural

APqC - Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Apoio: Mais Florestas PRA São Paulo

Carta disponível no link: https://www.aeaesp.org.br/ Quer apoiar esta carta? Escreva para especialistasambientais@gmail.com

12 março 2019

Diálogos Envolverde Economia Circular

Vivemos num mundo finito e, portanto, nada mais lógico do que fazermos uso de nossos recursos de maneira, não só, com o objetivo de prolongar a sua vida útil, mas de recolocar materiais e insumos de volta à cadeia produtiva. A máxima de Lavousier deve ser vista como algo essencial à nossa existência: “Nada se cria, tudo se transforma”. Mas infelizmente, a economia tradicional tem demorado a compreender os impactos causados pela crescente insustentabilidade dos negócios e muitos problemas ligados à produção, descarte e desperdício tem alcançado proporções alarmantes. O Diálogos Envolverde – Economia Circular vai debater os novos caminhos que podem e devem ser trilhados com a máxima urgência.


DATA: 28 de MARÇO de 2019

HORÁRIO: 10h às 13h

LOCAL: UNIBES CULTURAL

Rua Oscar Freire 2500 - ao lado do metrô Sumaré

REALIZAÇÃO Instituto Envolverde

INSCRIÇÃO GRATUITA

PROGRAMAÇÃO

10h00   Abertura

10h10   Apresentação de Projetos Relevantes

Jamile Balaguer Cruz - diretora Biocicla

Delaine Romano - Coordenadora do Fórum Lixo e Cidadania do Estado de São Paulo

10h30   Roda de Conversa

              - Cláudia Leite - Gerente de Cafés e Sustentabilidade da Nespresso

              - Guilherme Brammer - Fundador e CEO da Boomera

                Mediação: 

              - Dal Marcondes - jornalista, presidente do Instituto Envolverde

              - Reinaldo Canto - jornalista, vice-presidente do Instituto Envolverde

13h00    Encerramento


RSVP

Ana Maria Vasconcellos

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Telefone: 11 945 327 415

                      


04 março 2019

APOSTA EM ENERGIA SUSTENTÁVEL GERA ECONOMIA E RENDE PRÊMIOS

Histórias de empresários que investiram em energia solar e mudaram seus negócios

Por Reinaldo Canto
Aproveite antes que acabe! Esse bem que poderia ser o slogan para estimular os que ainda têm dúvida em relação às vantagens de se adotar a sustentabilidade como um ganho consistente para os negócios. Tudo bem que não são todos os casos em que as vantagens são instantâneas, mas no campo da energia e, principalmente, a solar, não há razões para não se buscar essa fonte como opção por energia de baixo impacto ambiental (limpa e renovável), fácil instalação e, quase sempre, apresentando uma importante redução nos custos financeiros. Pois além desses fatores já suficientes para uma decisão de mercado, que tal ainda ser possível obter ganhos em reconhecimento, imagem e até prêmios?
Recentemente conheci dois projetos ligados à energia solar que tiveram resultados bastante gratificantes para os empresários que decidiram adota-la.

Título de Cidadão

Há cerca de 10 anos, o empresário Francisco Edival Gonçalves Freires decidiu abrir o Hotel Tropical para aproveitar a vocação de turismo de negócios em sua cidade, Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul (cerca de 300 quilômetros da capital Campo Grande). Logo Edival percebeu que o calor local seria um fator de grande consumo de energia dos seus cerca de 500 hóspedes mensais no uso de ar condicionado em seus 26 quartos, isso sem contar outros consumos cotidianos como os de frigobar, chuveiro elétrico, aparelhos eletrônicos e iluminação.
Uma conta de energia de quase três mil reais todos os meses foi um fator fundamental para que o empresário pensasse na solução solar para o hotel. O sol que não falta nessa região do Centro-Oeste é um argumento pra lá de inquestionável: “Quando comecei o negócio já tinha pensado nesse caminho, mas era muito caro”, explica Edival. O constante barateamento da energia solar o convenceu da viabilidade do investimento.
Um projeto da empresa NeoSolar para a instalação de 97 placas solares acompanhadas de uma convidativa linha de crédito do FCO (Fundo de Financiamento do Centro-Oeste) do Banco do Brasil tornaram realidade a geração de 3.700 kWh consumidos mensalmente pelo hotel. O melhor: não houve necessidade de desembolso de capital, pois com o valor economizado foi possível pagar a prestação. “Tem gente que pensa que é um negócio complicado, mas com uma instalação de boa qualidade, bem feita, os resultados são imediatos”, conclui o proprietário do hotel.
Bem, só isso já seria suficiente para a satisfação do empresário, mas graças ao fato de ter sido o primeiro a usar energia solar na hotelaria da cidade, Edival passou a ser referência, inclusive para as escolas e os estudantes da região que de tempos em tempos realizam visitas monitoradas ao hotel. E não foi só isso, o empreendedorismo ainda lhe rendeu uma homenagem na Câmara Municipal de Nova Andradina.

Premiação e reconhecimento

Outro exemplo interessante é o de Luiz Claudio Dutra, proprietário da Bavep Barretos, concessionária da General Motors há 46 anos na cidade do interior paulista. Diante de uma conta de energia variando entre cinco e sete mil reais mensais e um consumo próximo de 9 mil Kwh, a opção pelo projeto solar não foi difícil. “Fizemos a instalação em setembro de 2017 e nossa conta já caiu para cerca de 200 reais por mês”, conta Luiz. 260 placas interligadas garantem o abastecimento da concessionária que comercializa em média 100 veículos novos e 60 usados todos os meses. O financiamento, segundo o empresário, não teve vantagens adicionais por contemplar instalação de energia limpa e renovável. Mesmo assim, será pago em 48 meses ou quatro anos.
Para a revendedora de veículos um bom negócio que, além da questão puramente financeira, ainda colheu frutos sendo contemplada com Prêmio Sustentabilidade 2018 concedido pela montadora General Motors pelo projeto Sistema de micro geração distribuída de Energia Fotovoltaica.



Que sirvam de exemplo para que novas iniciativas sustentáveis do setor privado sejam capazes de tirar outras empresas da falsa sensação de conforto, pois os custos, entre outros, da energia, água e matérias primas só tendem a crescer. Isso para não falarmos da necessidade urgente de combate às mudanças climáticas e ao aquecimento global. Desenvolvimento sustentável é o único caminho possível para que possamos continuar a habitar este planeta.

26 fevereiro 2019


São Paulo ainda patina no setor ambiental  

É preciso preservar conquistas e avançar na regulamentação em prol de todos os paulistas

A gestão Dória prega o desenvolvimento e a modernização nas relações do setor público com a sociedade, mas na área ambiental ainda precisa mostrar quais objetivos quer atingir. Entre outras questões fundamentais, São Paulo precisa manter o papel de protagonista que sempre teve no cenário nacional com relação às políticas ambientais.
Infelizmente, mesmo durante o período das eleições de 2018, o então candidato João Dória não havia apresentado um posicionamento claro quanto às pautas ambientais em seu plano de governo, deixando de apresentar posicionamento para oitos dos pontos priorizados,  expressando seis citações genéricas e apenas uma posição afirmativa.
O governo, até o momento, tem mantido uma atuação semelhante a da campanha, ainda sem o aprofundamento que as principais questões merecem, além da falta de informação quanto ao seu projeto ambiental para São Paulo.
Essas ausências preocupam as organizações que há décadas atuam no setor, pois temem retrocessos aos muitos programas anteriormente sob a gestão  da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SMA), criada mesmo antes da existência de um Ministério para tratar de questões ambientais no âmbito federal.
A atual administração, até então, teve como única medida concreta  promover uma reestruturação administrativa para integrar as Secretarias de Meio Ambiente, do Saneamento e Recursos Hídricos (SRH) e da Energia e Mineração (SEM), formando a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA).
Mesmo as diretrizes quanto às ações dessa super e inflada Secretaria ainda não foram apresentadas à sociedade. A própria nomeação de seus  subsecretários - de Meio Ambiente e de Infraestrutura -  só se deu 30 dias após a criação dos cargos, em 30 de janeiro.
Essa fusão é justificada pelo governo sob o  argumento de otimizar a máquina pública para poupar recursos, mas ela ignora os conflitos de interesses inerentes às agendas das antigas Secretarias, incluindo submeter a mesma coordenação as atribuições de requerer e expedir licenças ambientais para obras de infraestrutura, por exemplo.
Embora o decreto estadual que promoveu tais mudanças precise ser analisado com mais detalhes, é possível que hajam questionamentos quanto a sua constitucionalidade. A norma fala claramente da criação da SIMA e "desativa" algumas Secretarias anteriormente existentes, incluindo as de Saneamento e Recursos Hídricos e a de Energia e Mineração.
O Governador está autorizado a dispor, mediante decreto, sobre a organização e funcionamento da administração estadual. Porém, existem limites ao exercício dessa competência, já que essas disposições não podem implicar em aumento de despesa, nem criação ou extinção de órgãos públicos.
O modo como as atribuições das pastas integradas e desativadas foram recepcionadas pela nova estrutura não está completamente claro. Nesse momento, inclusive, aguarda-se um novo ato normativo do Governador para complementação do desenho institucional da Administração Pública paulista na gestão Dória e, enquanto isso, o futuro do sistema de gestão ambiental estadual ainda é incerto.
Outra preocupação trazida por essa  morosidade é a paralisação, até agora, das atividades  do Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA), órgão normativo e recursal, integrante do Sistema Ambiental Paulista, que tem sua existência e atuação assegurada pela Constituição Estadual. Uma instância pioneira no Brasil, uma vez que sua criação antecedeu à da própria Secretaria de Meio Ambiente.
No dia 31 de outubro do ano passado, os novos representantes da sociedade civil no CONSEMA foram eleitos para o mandato que deveria ter iniciado em janeiro de 2019, mas eles ainda não foram nomeados e, portanto, não podem assumir seu papel. Os antigos representantes tampouco foram recrutados para  dar continuidade ao funcionamento desse colegiado, o que já aconteceu em outras  transições de governo sem que houvesse demora como a que vem ocorrendo neste momento.
O CONSEMA realiza ao menos uma reunião ordinária por mês e, pela primeira vez em muitos anos, as reuniões mensais previstas para janeiro e fevereiro não ocorreram. A justificativa é a reforma administrativa. Porém, dentre as atribuições deste Conselho, estão justamente: “emitir pronunciamento prévio a respeito da Política Estadual do Meio Ambiente e acompanhar sua execução”, além de “avaliar as políticas públicas com relevante impacto ambiental”. Assim, a ausência de manifestação do CONSEMA, no contexto atual, fere disposições legais.
Outro ponto muito preocupante é a perspectiva de mudança da gestão dos assuntos ligados  a regulamentação e implementação do Código Florestal em âmbito estadual, que, em sua maior parte, eram de atribuição da SMA, mas que, agora, parecem estar migrando por completo para a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA). Essa mudança ainda incerta, é divulgada nos bastidores do governo como uma inovação, mas novamente acontece sem nenhum debate público e sem uma justificativa consistente.
Importa ressaltar que a Secretaria de Meio Ambiente era o órgão protagonista das políticas ambientais do Estado de São Paulo, com papel central na construção e implementação de diversas políticas públicas, a começar por aquela instituída pela  Lei 9.509 de 1997.  Atuava, ainda, como líder e protagonista de diversos compromissos e acordos ambientais assumidos pelo Estado. Portanto, é imperativo, particularmente em tempos de crise climática, que a sociedade paulista seja ouvida antes de se modificar este arcabouço institucional.
É temerário modificar a estrutura da Administração Pública, com a criação e extinção de órgãos, e diretrizes institucionais sem um debate público com os representantes do Legislativo paulista e da sociedade civil, especialmente com  o próprio CONSEMA.
Evidente que não se trata de questionar a competência técnica dos outros órgãos, nem da SAA, nem tampouco daqueles que integram as antigas Secretarias do Saneamento e Recursos Hídricos (SRH) e da Energia e Mineração (SEM), mas frisar que o atendimento à legislação ambiental estadual vem sendo ao longo dos anos garantido pela estrutura e funcionários da agora ex-SMA.
A lentidão apresentada até o momento pelo Governo para traçar as diretrizes mínimas que irão orientar o trabalho dos órgãos estaduais na área ambiental traz enormes preocupações. Ela dificulta a transparência necessária para o posicionamento dos diversos atores da sociedade civil sobre os rumos que estão sendo definidos para políticas públicas ambientais chaves tanto para o Estado como para o país, entre estas aquelas relacionadas a florestas, áreas protegidas e mudanças climáticas
Também suscita dúvidas sobre a permanência de compromissos internacionais assumidos pelo Governo de São Paulo em gestões anteriores, já que, durante sua campanha, o atual Governador chegou a manifestar que esses não seriam cumpridos ou mantidos.
Por exemplo, o Estado de São Paulo na COP 21, em Paris, se comprometeu com a adesão à Iniciativa 20×20 que prevê o compromisso de promover a restauração de 300 mil hectares até 2020. O déficit de vegetação nativa, na maioria das regiões do Estado, prejudica a manutenção da biodiversidade e a prestação de serviços ambientais, além de impactarem negativamente os recursos hídricos e as possibilidades de mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Sem a implementação efetiva da Lei Florestal, incluindo a restauração de APPs e Reservas Legais, esta meta não será alcançada e atuação em âmbito estadual pode impactar significativamente esse resultado.
Vale lembrar que, a Lei e outras normas estaduais que tratam do Programa de Regularização Ambiental de São Paulo (PRA-SP) encontram-se suspensas. No entanto, como já vinha sendo realizado pela antiga SMA e representantes da sociedade civil, é de grande importância que os órgãos públicos ambientais competentes mobilizem esforços para agilizar a "liberação" e implementação do PRA, instrumento de grande importância não só para conservação da biodiversidade, mas para a produção rural sustentável no país.
O manejo sustentável da vegetação nativa e direitos dos povos e comunidades tradicionais também ficam prejudicados diante do atual contexto. E estes assuntos dependem da definição de atribuições dos órgãos responsáveis e de discussões sobre a regulamentação do Código Florestal.
Assim, reivindicamos que:
·         Seja mantida a separação de competências entre Secretarias no que tange à política ambiental, em especial ao licenciamento ambiental;
·         Seja mantido o protagonismo do órgão ambiental na gestão dos instrumentos da Lei Florestal, como o CAR e o PRA;
·         O CONSEMA (re)assuma seu papel central na política ambiental, a começar pela nomeação dos novos conselheiros e retomada das reuniões;
·         As alterações das estruturas e competências dos órgãos ambientais sejam feitos atendendo os princípios da legalidade, publicidade e transparência;
·         Sejam mantidas e aprimoradas as conquistas ambientais do Estado de São Paulo que sempre teve um papel de vanguarda no cenário brasileiro.
Todas estas questões são partes integrantes e indispensáveis ao desenvolvimento de São Paulo e estão sendo atentamente observadas para garantir que não tenhamos retrocessos socioambientais escondidos sob um argumento desenvolvimentista que não se justifica mais nem a curto nem a longo prazo.

Coletivo Mais Florestas PRA São Paulo

Rede de ONGs da Mata Atlântica