04 outubro 2019

Por Que o Governo Bolsonaro é Obcecado Pelo Meio Ambiente

A política anti-ambiental do atual presidente Jair Bolsonaro (PSL) não é novidade para quem acompanhou o período eleitoral de forma atenta. Grande parte das suas promessas sinalizava o que estava por vir: do fim do Ministério do Meio Ambiente à “entrega da Amazônia para exploração estrangeira”. Se, de um lado, muitos eleitores não acreditaram no cumprimento destas promessas, ou não deram atenção para o tema, por outro, agropecuaristas, madeireiros, garimpeiros, mineradoras e as demais faces do extrativismo encontraram nos discursos inflamados do então candidato uma forma de remover empecilhos para a exploração.
Depois de eleito, Bolsonaro está realizando o prometido. Não extinguiu o Ministério do Meio Ambiente, mas a pasta está impedida de cumprir suas funções constitucionais e sob o comando de Ricardo Salles, ruralista condenado por fraude pela Justiça de São Paulo por adulteração de mapa ambiental para favorecer mineradoras enquanto secretário estadual do Meio Ambiente na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), em São Paulo. Salles também é investigado por enriquecimento ilícito, pelo Ministério Público de São Paulo.
Mas o ministro do meio ambiente é só um dentre dezenas de outros nomes com interesses antagônicos aos cargos que ocupam. Luiz Antônio Nabhan Garcia, Secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, agora responsável por temas como reforma agrária, demarcação de terras indígenas e quilombolas, presidiu desde o início dos anos 2000 a União Democrática Ruralista (UDR), criada em 1985 para se opor ao avanço do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Garcia foi, inclusive, acusado de criar milícias para assassinar integrantes de movimentos de reforma agrária. Outro exemplo é Marcelo Augusto Xavier, atual presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), um ruralista cujo principal objetivo é ceder terras indígenas para implementação de megaprojetos extrativistas
Entrevistamos 15 pessoas para esta matéria. Levamos uma única pergunta: por que o Governo Bolsonaro é obcecado pelo meio ambiente? Políticos, jornalistas, ativistas, cientistas e pesquisadores compartilharam suas perspectivas sobre o por quê o atual presidente está colocando em curso o que pode ser considerada a política ambiental mais destrutiva já vista. Não esquecemos que outros governantes, de outras siglas e partidos, até mesmo do lado esquerdo do espectro político, avançaram em agendas de favorecimento de atores privados em detrimento do meio ambiente e da sociedade. Mas “a obsessão do Governo Bolsonaro pelo desmonte das estruturas e órgãos socioambientais não encontra semelhantes na história brasileira”, ressaltou Aldem Bourscheit, jornalista especializado em pautas socioambientais e científicas.
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A afirmação de Bourscheit encontra respaldo não só nos nomes com os quais Bolsonaro escolheu se cercar, como também no enfraquecimento de órgãos ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que, em fevereiro, exonerou 21 dos 27 superintendentes regionais e sofreu corte orçamentário de 24%. O órgão passa a trabalhar com orçamento anual de R$ 279,4 milhões, porém suas despesas fixas somam R$ 285 milhões. As consequências já foram sentidas de janeiro a maio: houve queda de ações fiscais e, por conseguinte, diminuição de 34% do número de multas aplicadas por desmatamento ilegal. Outra medida foi a criação de um núcleo de conciliação, que detém poder para mudar e, até mesmo, anular multas realizadas pelo órgão florestal, enfraquecendo sua atuação.

A OBSESSÃO DO GOVERNO BOLSONARO PELO DESMONTE DAS ESTRUTURAS E ÓRGÃOS SOCIOAMBIENTAIS NÃO ENCONTRA SEMELHANTES NA HISTÓRIA BRASILEIRA
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Outros órgãos também sofreram. O Instituto Chico Mendes (ICMBio) viu sua diretoria e chefias regionais serem tomadas por militares com pouca ou nenhuma experiência na área ambiental. Já o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) presenciou o episódio emblemático da censura do governo aos dados de desmatamento, perdeu Ricardo Galvão, ambientalista reconhecido mundialmente com 49 anos de trabalho no órgão. Em seu lugar, outro coronel: Darcton Policarpo Damião assumiu o cargo prometendo dar “transparência total” aos dados sobre desmatamento no país, sugerindo que os anteriores foram forjados. Uma tentativa de mascarar a verdade ao culpar o emissário pelos números anunciados.

Economia e desenvolvimento para poucos

Para Francisco Milanez, biólogo e Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, parte da explicação sobre o por que o governo Bolsonaro é obcecado pelo meio ambiente está na crença de que a proteção ambiental é uma barreira para os negócios: “eles acreditaram no discurso simplório de que meio ambiente é quem tranca as coisas e, na verdade, não é. Ele é o suporte para toda atividade ser bem desenvolvida. Sem meio ambiente, sem as florestas não há agricultura. A única coisa que regula o clima para poder haver agricultura, que depende da chuva, são as florestas”, explica o biólogo.
Esse pensamento “visão de túnel” anda lado a lado a uma crença bastante antiga de que a natureza existe para ser explorada e quando você a protege de alguma forma você causa subdesenvolvimento. “É quem acha que mineração vai transformar o Brasil em uma potência”, explica Daniele Bragança, editora no site O Eco. Numa visão de mundo onde o homem deve poder fazer uso ilimitado e sem restrições de tudo, espaços sensíveis e protegidos não cabem. Num discurso durante o último congresso da Fenabrave, entidade que representa o setor de concessionárias de veículos, ocorrido em São Paulo, no começo de agosto, o presidente Jair Bolsonaro esteve presente e afirmou que, “com tecnologia, em 20 anos, Roraima teria uma economia próxima do Japão. Lá tem tudo. Mas 60% está inviabilizado por reservas indígenas e outras questões ambientais”.
Enquanto tenta se ancorar num discurso de soberania nacional, ao dizer que parques e terras indígenas foram decretadas por pressão estrangeira, ignorando o fato de que todo arcabouço ambiental de hoje, junto com muitas reservas importantes na Amazônia, como os parques nacionais da Amazônia, Anavilhanas e Jaú, foram criadas durante o regime militar, o governo brasileiro vem se articulando com lobistas americanos para recrutar mineradoras norte americanas para exploração de terras brasileiras. De baixo dos panos, a agenda do governo brasileiro para destruir o meio ambiente com apoio de multinacionais segue firme e forte.
Seria um erro não salientar que a obsessão do Bolsonaro e sua trupe não é só com a Natureza. A destruição é também direcionada a todas as pessoas que não vivem sob a lógica de desenvolvimento estabelecida como norma em seus imaginários. Elas também são consideradas uma barreira que deve ser superada para a expansão econômica. “O Brasil é considerado um dos quatro países com maior número de assassinatos no mundo e grande parte deles acontecem no campo, por questões de terra e ambientais”, lembra Paulo Brack, professor do departamento de Botânica da UFRGS e coordenador do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (INGÁ). “Chegamos a averiguar no mapa de homicídios relativos no Brasil da década passada que a região do arco do desmatamento é a região onde ocorria os maiores índices relativos de homicídios. Entre os dez municípios com maior número de assassinatos no país, pelo menos sete deles estavam nesta região e no centro-oeste”, completa ele.

Seria um erro não salientar que a obsessão do Bolsonaro e sua trupe não é só com a Natureza. A destruição é também direcionada a todas as pessoas que não vivem sob a lógica de desenvolvimento estabelecida como norma em seus imaginários.
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Com uma possível aprovação do Projeto de Lei 3715/19, que autoriza o porte de arma no limite de toda a propriedade rural, a situação dos assassinatos por conta dos conflitos no campo deve se agravar. Maurício Angelo, jornalista investigativo e fundador do Observatório da Mineração, afirma que a situação legaliza o extermínio nas zonas de conflito, já que “o produtor rural não vai mais responder por isso”. Os últimos dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) reforçam a violência no campo: a área em disputa nos conflitos teve aumento de 6,5%, de 2017 a 2018, representando 39,425 milhões de hectares ou 4,6% de todo território nacional. Já o número de assassinatos teve queda de 71 para 28 – resultado explicado pelo ano eleitoral que, segundo a organização, registra historicamente índices menores. A CPT já prevê um aumento das mortes no campo em 2019; a organização já registrou 10 mortes violentas apenas nos quatro primeiros meses deste ano.

Despreparo e desconhecimento

Observada por este ângulo, a política anti-ambiental do Governo Bolsonaro pode ser lida como o ápice do capitalismo predatório, seu expansionismo intrínseco e sua visão de ganhos de curto prazo. Mas conforme os desdobramentos dessa política vão se revelando, fica difícil encontrar todas as respostas num desenvolvimento econômico cego.
A Amazônia brasileira em chamas por consequência do desmatamento não é necessariamente a melhor propaganda para o agronegócio e sua atuação no mercado internacional. Antes mesmo dos incêndios no norte do país se tornarem pauta internacional, alguns setores do agro já estavam preocupados com os possíveis efeitos da anti política ambientalista do presidente. Na reportagem de Bernardo Esteves, publicada em junho na revista Piauí, alguns ruralistas assinalaram que as exportações das commodities seriam prejudicadas se a sustentabilidade e o compromisso com o não desmatamento não fossem levados a sério. O que era previsão se tornou realidade: 18 marcas suspenderam a compra de couro do Brasil, entre elas a H&M, segunda maior varejista do mundo. O movimentou preocupou o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), associação do setor que emitiu nota de alerta ao ministro Ricardo Salles.
É por isso que as atitudes da atual gestão frente às questões ambientais suscitam outras explicações. Para Andrea Vialli, jornalista e consultora especializada em sustentabilidade, Bolsonaro não tem densidade cognitiva para compreender as correlações entre meio ambiente e outros temas importantes, como economia, saúde, qualidade de vida. “Por isso, ele propõe, por exemplo, transformar uma área de reserva ambiental importante em Angra dos Reis em algo parecido com Cancún”, exemplifica ela. “Ele não faz a menor ideia de que a área preservada gera serviços ecossistêmicos e atrai turismo para a região, porque ele só concebe a ideia de turismo predatório, invasivo”. Vialli fala da reserva da Estação Ecológica da Tamoios, local onde Bolsonaro foi pego praticando pesca ilegal.
Ivaneide Bandeira, coordenadora da ONG Kanindé, concorda que parte das políticas anti ambientais do presidente estão ancoradas num desconhecimento profundo sobre a pauta ambiental: “porque se você tem uma floresta saudável, você mantém o equilíbrio do planeta. Se você tem uma floresta saudável, você mantém os recursos hídricos que garantem a economia e a agricultura”. Para Marina Silva, historiadora, professora, Ministra do Meio Ambiente nos mandatos de Lula e ex-candidata à presidência pela Rede, é uma mistura de despreparo com descompromisso: “é um governo que atira no escuro o tempo todo. Está prejudicando o agronegócio, a proteção ambiental, as instituições públicas, os interesses estratégicos do Brasil em relação à proteção dos seus ativos, a relação do Brasil com outros países secularmente parceiros e nossos interesses diplomáticos”, explica ela.

Destruição ideológica

Há também uma tentativa incessante, mas ainda não muito bem aceita pela sociedade, de colocar a proteção ambiental como uma pauta partidária da esquerda, como se tudo que não lhe interessa e não lhe é compreendido deva ser colocado como inimigo. “O que o incomoda e não cabe em seus esquemas simplistas não deveria existir. Como recusa terminantemente os direitos humanos, o direitos de reconhecimento e atenção às minorias fragilizadas socialmente, direitos trabalhistas, sistema universitário e de ciências, também recusa, terminantemente a importância, a realidade e o significado do ataque sistêmico ao meio ambiente que seu governo promove”, explica o psicanalista Thales Ab’Saber.
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No desmonte da institucionalidade, o setor ambiental é espaço rico para avanço de posturas e tomadas de decisões que tentam ser justificadas supostamente por um posicionamento anti ideológico. Reinaldo Canto, professor de gestão ambiental e sustentabilidade e diretor de projetos especiais da Envolverde, acredita que isso acontece porque o meio ambiente reúne sob a mesma pauta questões caras aos direitos humanos no que se refere à proteção a minorias, como comunidades tradicionais e ribeirinhas; representam pontos importantes que interessam à comunidade internacional, como as mudanças climáticas e a proteção das florestas; contam com a atuação expressiva de inúmeras organizações não governamentais.
“Para um governo que odeia minorias, o respeito às diferenças, a ciência e a globalização, atacar o meio ambiente que, diga-se de passagem, é o maior patrimônio do Brasil, é também atacar tudo que vai contra a visão limítrofe e reducionista que muitos ocupantes do primeiro escalão defendem”, salienta o professor.
Célia Xakriabá, socióloga, antropóloga e liderança indígena, ressalta a afirmação de Canto e Ab’Saber ao ser categórica em dizer que Bolsonaro não é indiferente aos povos originários. “Não é que ele é contra as populações indígenas, ele é muito mais do que isso – não é um pensamento indiferente, é ódio. Ele toma os povos indígenas como inimigos. Então, não se trata apenas de uma pauta econômica e, sim, de princípios e valores pessoais”, afirma. Há um ódio direcionado destilado, inclusive, nos seus 27 anos como deputado.

É UM GOVERNO QUE ATIRA NO ESCURO O TEMPO TODO. ESTÁ PREJUDICANDO O AGRONEGÓCIO, A PROTEÇÃO AMBIENTAL, AS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS, OS INTERESSES ESTRATÉGICOS DO BRASIL EM RELAÇÃO À PROTEÇÃO DOS SEUS ATIVOS, A RELAÇÃO DO BRASIL COM OUTROS PAÍSES SECULARMENTE PARCEIROS E NOSSOS INTERESSES DIPLOMÁTICOS.
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A partir de todos os ângulos de análise, as respostas se convergem e reforçam a vontade incessante do presidente ser notado e percebido como alguém que está acima de tudo e de todos. “Bolsonaro não para de fugir de falar do ambiente simplesmente porque não vai parar de ‘ser falado’, nem hoje, nem na história, sobre o que representa para o meio ambiente: a redução de toda vida a um modo primitivo e tosco de produção de Capital barato e antigo. O que, muito provavelmente, é de fato o signo real de todo o seu governo”, acrescenta Ab’Saber.
Nesta cruzada egóica, o Brasil assiste Bolsonaro e seus subalternos políticos dançarem um tipo de marcha fúnebre que não homenageia o falecido, mas sim celebra o que será posto em seu lugar. Ao que tudo indica, a procissão só está começando.

Trabalharam nesta matéria Juliana Aguilera e Marina Colerato.

02 outubro 2019

ODS TALKS ABRAPS 2019


04 julho 2019

SER VOLUNTÁRIO NO BRASIL AINDA É PARA POUCOS!

Por Reinaldo Canto – 
Iniciativas de empresas como a Pernod Ricard e seu Responsib’All Day contribuem para tentar mudar essa realidade
O brasileiro é reconhecido por ser um povo amigável e solidário, mas quando se trata de dedicar algumas horas para atividades de voluntariado, estamos bem distantes dessa visão. Segundo pesquisa de 2018 realizada pelo IBGE 7, 4 milhões de pessoas ou 4,4% da população acima de catorze anos participou de alguma atividade voluntária, ou seja, realizou um trabalho não obrigatório de não menos que uma hora sem benefícios ou trocas, sendo que as mulheres são mais voluntárias (5,1%) do que os homens (3,5%) nesse total. Só para se ter um dado de comparação, mais de 14% da população dos Estados Unidos praticam o voluntariado, nada menos que dez pontos percentuais acima dos registrados em nosso país!
Para Rosângela Melato, consultora em gestão, especialista em voluntariado corporativo e diversidade da Mosai&co, há muito espaço para que esses números possam melhorar significativamente sendo que as empresas tem um papel muito importante para alavancar esse processo. Mas para ela é preciso estar atento a alguns aspectos fundamentais, “as atividades precisam dialogar com o core business da empresa, porque caso contrário pode ser um desestímulo para o seu colaborador que pode achar que está perdendo tempo ou negócios para fazer outra atividade. Voluntariado estrutura marca, contribui para ampliar as capacidades de seus funcionários e também para seu corpo gerencial. Isso precisa ser entendido por isso da importância da estreita relação com o negócio da empresa”.
FAZENDO A LIÇÃO DE CASA
A 9ª edição do Responsib’All Day cumpriu à risca o que estabelece as boas práticas do voluntariado. Realizado neste mês de junho pelos mais de 19 mil funcionários da Pernod Ricard (fabricante de bebidas como Chivas Regal, Ron Montilla e vodka Orloff) em 87 países, o projeto promoveu atividades ligadas ao conceito de economia circular e gestão de resíduos, ou seja, uma causa positiva e totalmente integrada aos negócios cotidianos da empresa.
E aqui no Brasil, a empresa literalmente parou em todas as localidades em que possui colaboradores, um total de 450 pessoas. Os mais de 200 da empresa, em São Paulo, foram até o Centro Paulus, no bairro de Parelheiros, região carente no extremo sul da capital paulista e participaram de atividades como workshops e oficinas que tinham como foco o desenvolvimento de novos produtos – com alto valor agregado – a partir de vidro reutilizado de garrafas vazias das marcas comercializadas pela empresa. As oficinas ministradas pela artista plástica Adriana Yazbek, pelo arquiteto Gustavo Calazans e pelo produtor orgânico Árpad Spalding trabalharam no desenvolvimento de peças como bijuterias, luminárias, bandejas, painéis e peças de revestimento, entre outros, produzidos pelos funcionários e, posteriormente, colocados à venda na região e o dinheiro arrecadado ficando disponível para apoiar os trabalhos da instituição local.
Já em outras plantas da empresa em Resende (RJ) e em Suape (PE), nas quais trabalham 150 colaboradores, além de repetirem a atividade de São Paulo, os funcionários também botaram a mão na massa para produzir itens a partir de materiais das unidades que iriam ser descartados e também sobras de tecidos de outras indústrias. Todos os produtos confeccionados nesse dia, como almofadas, foram encaminhados para organizações sociais da região. Até mesmo funcionários de áreas de vendas da empresa em outras regiões e estados distantes das fábricas também participaram do Responsib’All Day  visitando restaurantes, bares e estabelecimentos comerciais para falar sobre economia circular, reaproveitamento e transformação de materiais, com divulgação, inclusive, de um drink assinado por um  mixologista (especialista no preparo de bebidas e coquetelaria), feito a partir de cascas e matéria prima orgânica que seria descartada.
Segundo Sirley Lima, Diretora Jurídica e de Recursos Humanos & Sustentabilidade da Pernod Ricard Brasil, a realização do Responsib´All Day tem sido um sucesso, “desde 2010 ele representa uma das datas mais importantes para a Pernod Ricard e todos os seus funcionários no mundo. Desde a sua fundação, a empresa tem a responsabilidade social em seu DNA, com um mindset de que uma empresa tem que cumprir seu papel socioambiental, E esse é o grande legado que queremos deixar ao longo de todos esses anos. Ficamos muito felizes em poder atuar em prol de diversas questões relacionadas à sustentabilidade socioambiental”.
Quanto à edição de 2019, Sirley acredita que foi possível sensibilizar os colaboradores e parceiros para a importância e os significados da economia circular e da correta gestão de resíduos. “Por mais que a gente já faça campanhas ao longo do ano com esse foco, com o Responsib´All Day a gente consegue impactar de maneira mais objetiva. Isso porque todos os colaboradores estão focados naquela atividade. É completamente diferente do que falar com eles no dia a dia de trabalho, quando a cabeça, às vezes, está pensando nas entregas corporativas”, explica a diretora da Pernod Ricard.
Perguntada se parar a empresa um dia inteiro para atividades de voluntariado não acarreta prejuízo, Sirley Lima foi enfática, “Pelo contrário! Ter um dia inteiro dedicado por nossos colaboradores a um pilar fundamental da estratégia do negócio engaja, aproxima do campo e traz um senso de orgulho incrível. Ver a transformação que podemos fazer nos lugares e comunidades, desenvolvendo seus colaboradores e parceiros, protegendo o meio ambiente e compartilhando valor com todos, faz com que os nossos talentos se lembrem a cada ano do nosso propósito”.
De toda maneira os idealizadores do Responsib´All Day tem consciência de que o trabalho não pode parar, que é algo constante. “Um resultado muito positivo que enxergamos é que as nossas fábricas, por exemplo, possuem um índice de quase 100% de reaproveitamento e reciclagem de resíduos sólidos. Esse e outros esforços, quando se juntam, geram resultados importantes para toda a sociedade”, resume a executiva.
Além do Responsib´All Day, a Pernod Ricard Brasil também possui um programa de voluntariado que é ativo o ano todo. São mais de 61 funcionários-voluntários, que doam mais de 410 horas do seu tempo – no horário de trabalho. O grupo promove cinco iniciativas por ano. Uma delas, inclusive, contemplou a construção de uma biblioteca.
Nada melhor do que exemplos a serem seguidos em prol de benefícios comuns para todos como explica a consultora da Mosai&co, Rosângela Melato, “como indivíduos somos uma sociedade linkada somos pontos de uma rede e se um ponto dessa rede não se desenvolve a rede fica frágil. Devemos pensar voluntariado como um apoio dessa rede. Há programas para se aprender a ser voluntário e aplicar o voluntariado. Empresas gostam de contratar pessoas que tiveram experiências de voluntariado”.
Uma sociedade em que mais pessoas e empresas exerçam o voluntariado certamente será mais solidária, justa e socioambientalmente responsável.
(#Envolverde)

03 maio 2019

Municipalistas querem cidades produtivas e antenadas com o século XXI

ENTREVISTA: Carlos Cruz, presidente da Associação Paulista de Municípios
Por Reinaldo Canto e Rita Nardy, especial para a Envolverde

Carlos Cruz, presidente da Associação Paulista de Municípios. Jornalistas Reinaldo Canto e Rita Nardy
Ao longo do tempo a gestão pública em todos os níveis, mas principalmente a municipal, mais próxima do cidadão, tem sofrido uma crescente pressão. As exigências por eficiência e resultados alcançaram altos níveis demandando os prefeitos a serem mais ousados ao mesmo tempo que sejam capazes de cumprir à risca o que determina a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Os atuais prefeitos completaram seus dois primeiros anos de mandato tendo ainda outros dois anos pela frente. Ao mesmo tempo, assumiram novos executivos no âmbito estadual e federal. Serão, portanto, novos desafios no relacionamento com governador, secretários, presidente e ministros. Em tempos de dinheiro curto as tarefas se tornam cada vez mais complexas e os espaços de manobra assim como de orçamento ainda mais curtos.
Os velhos problemas também vão continuar a rondar as administrações municipais em meio à torcida pela recuperação econômica e orçamentos enxutos que precisam dar conta de atender às expectativas de suas respectivas populações.
Enquanto isso as ameaças vinculadas às mudanças climáticas e o aquecimento global; a segurança hídrica da população; o déficit histórico do saneamento básico; o desmatamento e a necessidade de adequação ao Código Florestal; a mobilidade urbana e a cada vez mais complicada gestão de resíduos, para ficar em alguns dos principais problemas ligados à pauta da sustentabilidade, não dão trégua. Esse é o complexo e desafiador cenário que está à frente de Carlos Alberto Cruz Filho, presidente da APM, a Associação Paulista de Municípios até o final de seu mandato em 2020. A entidade que não possui fins lucrativos completou 70 anos em 2018 e já foi presidida por políticos conhecidos como o ex-prefeito da capital, Gilberto Kassab e o ex-governador Orestes Quércia.
Para Cruz que já foi vereador e vice-prefeito de Campinas, desde 2016 na presidência da Associação Paulista de Municípios (APM), as cidades precisam ser mais inteligentes, antenadas com as demandas do Século XXI e capazes de atrair novos investimentos tendo como ponto de partida a vocação do município, ou seja, o que ele possui de competência para produzir. Para ele todos esses fundamentais enfrentamentos caminham lado a lado com uma bandeira histórica da APM que é a repactuação federativa que garanta mais justiça na distribuição dos recursos.
“VAMOS LUTAR SEM TRÉGUA PELA REFORMA TRIBUTÁRIA EM APOIO ÀS GESTÕES DOS PREFEITOS DAS 645 CIDADES DO ESTADO DE SÃO PAULO INDEPENDENTEMENTE DA COLORAÇÃO PARTIDÁRIA OU IDEOLÓGICA”.
Quais as suas prioridades a frente da APM?
CC – Mais do que prioridades nós temos bandeiras que em primeiro lugar é a bandeira histórica que é a Reforma Tributária. Temos uma profunda preocupação com a desigualdade com que os municípios são tratados na arrecadação dos tributos federais. Hoje 70% ficam com a União, 20% com Estados e apenas 10% vão para os municípios, uma completa inversão da pirâmide. Essa concentração na esfera federal faz com que os prefeitos virem pedintes tendo que ir constantemente à Brasília com o “pires na mão”. Vale lembrar sempre que cidadão habita a cidade, não o Estado e nem a União.
A segunda é implementar o artigo 23 da Constituição de 88 (que estabelece as normas de cooperação entre a União, Estados, Distrito Federal e Municípios). E também apoiamos a Reforma da Previdência. Ela é absolutamente necessária ou conseguimos fazer o equilíbrio das contas públicas ou as próximas gerações não terão garantias.
O Sr. tem buscado se aproximar de Câmaras de Comércio internacionais, o que pretende com isso?
CC – Temos conversado muito com muitas empresas estrangeiras. Chinesas, coreanas, até de Israel que tem interesse em saber o que os municípios paulistas têm a oferecer. O agrobusiness em São Paulo, por exemplo, é muito forte. Queremos saber o que eles querem nos vender: iluminação pública? Usina de tratamento de lixo? Parques de captação de energia solar, eólica? Segundo, queremos saber o que você (empresa) precisa pra se instalar aqui. Logística, mão de obra, incentivos fiscais? E, por fim, o que você quer comprar e nós podemos vender? Os diferentes municípios do estado têm vocações e produções bastante diversas.
Nós sabemos que existe, um caminhão de dinheiro no exterior para ser colocado no Brasil. Investidores que esperam principalmente o equilíbrio fiscal para colocar dinheiro aqui. O governador (João Dória, eleito no final de 2018) tem buscado caminhos para atrair investimentos em várias áreas para produção.
Como o Sr. pretende conseguir fazer isso na prática?
CC – Primeiramente por meio do nosso Congresso Estadual de Municípios que será realizado entre 14 e 19 de outubro em Campos do Jordão. Vamos conversar no nosso Congresso com essas câmaras e essas empresas. Mandei convite para o governo chinês participar do Congresso e ele está autorizando empresas chinesas a vir. Muitas empresas chinesas fecharam por questões de passivos ambientais. Mas essas empresas fechadas tem que procurar algum lugar no planeta e o governo chinês apoia essa mudança. Tendo, obviamente que se adequar as leis ambientais nesses locais. Estamos conversando com os prefeitos para que façam parques industriais, condomínios industriais, que possam receber 50 indústrias dessas. Estamos de olho nesse mercado.
Como pretendem identificar essas potencialidades?
CC – Estamos criando uma plataforma de comércio digital para dar ao produtor a possibilidade de vender pelo menor preço, uma Câmara de Comércio e Indústria dos Municípios Paulistas. Países com fortes necessidades de consumo como China com seus mais de 1 bilhão e 300 milhões, a Nigéria que tem 200 milhões de habitantes. Eles querem comprar nossos alimentos. Por isso, nós queremos ajudar os prefeitos a ajudar o seu produtor a vender seus produtos. Nós queremos que essa plataforma seja um grande ambiente de informação. Cada município deverá alimentar essa base de dados. Se tem uma demanda internacional de uma câmara de comércio ou um país necessitando de um produto, a plataforma irá informar qual município ou quais cidades possuem esse produto. Muitos produtores chegam a jogar fora produção, pois não alcançam preço e não tem pra quem vender. Isso a plataforma quer resolver.
O mercado global, principalmente os governos europeus tem critérios ambientais e sustentáveis como um grande diferencial competitivo que impactam nessa relação e fazem diversas exigências para a compra de produtos. Por outro lado, como aumentar a produção, garantir a qualidade e também os impactos que serão grandes aos ecossistemas? Importante também será adotar padrões de qualidade do produto e de como ele é produzido, incluindo mão de obra qualificada. Como resolver todas essas questões?
CC – Como eu disse antes essas empresas que vierem pra cá terão primeiramente que se adequar as nossas leis ambientais. No caso dos nossos produtores precisamos de parcerias como com o Sebrae que realiza workshops, cursos de produtividade para os produtores. Estamos numa fase embrionária ainda. Para atender o mercado no exterior, essa atuação do Sebrae é muito importante. Estabelecer esse padrão internacional. É uma questão de qualificação, capacitação, consciência e competitividade. O melhor produto pode ficar comprometido por um problema identificado lá no começo da cadeia de produção. Isso precisa ser identificado e solucionado com rapidez.
Qual a visão dos prefeitos paulistas sobre a sustentabilidade, qualidade de produtos. Além de pensar nas empresas como capacitar nossos gestores públicos para essas questões?
CC – Isso existe aos montes já temos vários cursos de capacitação. O que temos de criar são novas  parcerias com universidades e entidades.
O gestor público já está preparado para esse novo cenário?
CC – Se ele não está preparado, ele tem que se preparar, pois as exigências de mercado. Nós queremos ajudar o prefeito a ajudar o produtor da sua cidade. Queremos ampliar o círculo de atuação da sociedade que ele participa. Não só cuidar de tapar buraco e resolver o problema da iluminação das ruas. Precisa ir além, uma atuação social mais forte, de liderança na sua cidade. Chamar os produtores para reforçar as suas vocações. Nós vamos dar a ele subsídios para que ele possa deslanchar nessa visão.
Hoje é deficitário na sua experiência?
CC – É sim, falta consciência. Mas existe uma razão. Não é deficiência por falta de vontade e iniciativa. É por falta de recurso.
Existem políticas públicas já estabelecidas no âmbito federal em que os recursos estão disponíveis para os municípios. Mas as prefeituras não conseguem receber esses recursos por falta de projetos.
CC – É isso que eu ia dizer. Essa é uma outra questão. Dinheiro tem, mas não tem projeto, mas isso é facilmente explicável. Campinas, por exemplo, está fazendo um BRT, um corredor enorme. O estado de São Paulo tem 645 municípios. Se pedir pras pessoas enumerarem vão lembrar das  15 principais. Aí se pensar bastante vão talvez chegar, com muito esforço a 45 cidades. Depois esgotou. Sobraram 600 cidades. O que quero dizer com isso é que 75%, 80% dos municípios tem menos de 20 mil habitantes. Aí esse município precisa nomear um secretário de educação, de saúde, de habitação, de esportes, precisa conseguir um gestor competente para a iluminação pública. Onde esse prefeito vai achar pessoas qualificadas em sua cidade para fazer a gestão disso? E esses secretários vão ter que achar outras pessoas para montar suas equipes.
Não acha que esse trabalho em rede na plataforma pode ajudar?
CC – Na plataforma não, mas em cursos. Temos muitos cursos de capacitação e eles precisam ser ampliados.
As Prefeituras não podem trabalhar juntas para tentar solucionar problemas comuns?
CC – É uma tendência. Tem aí os consórcios, pois muitos dos problemas não conseguem resolver sozinhos. Nem pequenos, nem mesmo os grandes.
São casos que extrapolam a atuação de uma única cidade como na gestão da água e dos resíduos sólidos
CC – Gestão das águas, por exemplo, eu firmei um protocolo, convênio de cooperação técnica com o Conselho Regional de Administração que tem um trabalho muito bom nessa área. Eles criaram um programa chamado Gestão das Águas Paulistas. Ferramenta de gestão que visa combater o desperdício da água. Isso é um exemplo de que existem vários organismos que estão preocupados com isso. São coisas que correm em paralelo. Tudo isso vai cair inevitavelmente na falta de recursos. Mesmo que o município tenha essas soluções consorciadas. Tem muito investimento pra vir, por exemplo, na área de saneamento. Os prefeitos estão pressionados. Eles têm prazos a cumprir. A APM possui uma cadeira no CONSEMA (Conselho Estadual de Meio Ambiente) representando os municípios isso há mais de 20 anos.
Como a APM faz a escuta do cidadão?
CC – O Dr. Ulysses Guimarães tinha uma frase: “coitado do político que não sabe interpretar o recado das urnas”. Você tem que pegar o resultado da eleição e interpretar o recado que foi dado ali, muitas vezes nas entrelinhas. Nós temos essa preocupação de fazer essa interpretação. E no país foi dado esse recado da mudança. E nós já sabíamos disso antes, sabe por que? Vou dar um dado que muito provavelmente vocês não saibam: Na eleição municipal de dois anos atrás, 72% dos prefeitos de São Paulo nunca tinham sido nada e nas Câmaras de Vereadores foram eleitos 84% novos. Então a renovação já estava esboçada na eleição municipal. Nós já tínhamos identificado esse sentimento de descontentamento com o status quo.
Agora respondendo a sua pergunta, nosso público alvo é o gestor público e não o cidadão. Quem fala com o cidadão é o prefeito e nós não interferimos na fala dele. Cada um sabe onde o calo aperta. Nós damos/apontamos caminhos sem interferir na liberdade que ele tem de cumprir os compromissos que ele assumiu. Ele foi eleito porque propôs alguma coisa que foi aceita pela maioria. Nosso papel é dar subsídios para que cada vez mais ele tenha uma excelência na gestão. O cuidado de fazer a sintonia fina com o cidadão é dele, prefeito.
Quando tivemos a grande crise hídrica e “descobrimos” que a água é fundamental, pois até indústrias pararam de produzir. Como a APM reagiu na época? E os prefeito como reagiram?
CC – Essa é uma questão muito específica. Nós ficamos observando. Ficamos atentos a abertura de canais de representação coletiva. Interesses individuais até atuamos como parceiros, mas o interesse coletivo é que prevalece. Discutimos isso no Consema, ainda governo Alckmin. Fizemos um papel de intermediário. Secundário, pois não temos essa ingerência. Nós estamos atentos ao movimento dos consórcios.
Exemplo é a questão do lixo, transformando em energia, por exemplo. Haverá discussões como essa no nosso Congresso. Muitas empresas com tecnologias para resolver essas questões. Nós buscamos disponibilizar para os prefeitos tudo o que de mais moderno existe à disposição no mercado, mas quem vai decidir se quer ou não é ele, nós não interferimos de maneira nenhuma.
Essa é a credibilidade da Associação Paulista de Municípios de que não abrimos mão. Pois, quando ligo para um prefeito todos me atendem e por que? Porque tenho notícia que interessa a ele, mas isso não vale para intermediar trabalho de empresa. As empresas devem oferecer seus produtos e serviços em nosso Congresso onde elas pagam pelo espaço. Eu digo pra essa empresa: “em cinco dias você terá oportunidade de falar com pelo menos 200 prefeitos, aproveite”. Não faço negócios, disponibilizo o espaço e novas tecnologias. Quem vai decidir ou não é o prefeito.
Para o que as cidades paulistas precisam estar preparadas?
CC – A cidade precisa entrar no século XXI, as cidades precisam ser cada vez mais cidades inteligentes, seja na mobilidade urbana, na identificação de um vazamento de água, mas pra ter isso precisa cabear a cidade com fibra óptica. Nós fazemos essa indicação. Com wifi, a internet das coisas, a conexão total, conectar com tudo. Temos consciência disso, já fazemos muita coisa e vamos fazer mais!
Qual a mensagem que a APM passa para os prefeitos quanto aos cuidados com os ativos ambientais do estado. Seja a água, seja economia circular, reciclagem, seja qualidade do ar e nossas florestas?
CC – Primeiro é a questão da consciência. Nós estamos sempre plugados com as tendências cada vez maiores. Quando teve uma inversão térmica e uma forte nevasca nos Estados Unidos o Trump não reconheceu que aquele era um fenômeno extremo e violento, ele disse: ”cadê o aquecimento global? Olha a minha rua cheia de neve”. Aí você pergunta por que os chineses ultrapassaram os Estados Unidos? A explicação é simples: enquanto o chinês está preocupado em colonizar o lado escuro da lua, ele está preocupado em construir um muro. Isso não dá!
Consciência, por mais que o país queira a mudança, o nosso presidente não se conscientizou ainda que não foi ele que foi eleito. Foi um forte sentimento de mudança e é isso que tentamos passar para os nossos prefeitos todos os dias, inclusive nessas questões ambientais.
(#Envolverde)

11 abril 2019

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DESPERTA FASCÍNIO E TEMOR NO BRASIL, DIZ PESQUISA


A IA está entre nós e o mundo será, em parte, governado pelos algoritmos

Por Reinaldo Canto*
Talvez não seja como num passado recente quando o temor quanto ao avanço da chamada inteligência artificial estava na possibilidade de o ser humano ser dominado por máquinas e nos tornaria a todos dispensáveis. Esse cenário já foi bem explorado, entre outros, pelo cinema e pela literatura.
O certo é que o avanço da IA ao mesmo tempo que abre enormes possibilidades também apresentam temores diferentes da ficção, mas não menos desafiadores e preocupantes.
Isso foi o que constatou a pesquisa realizada pela Market Analysis e cujos resultados estão sendo publicados com exclusividade por CartaCapital.
No início de dezembro do ano passado foram realizadas entrevistas com 513 adultos usuários da internet no país para entender e identificar as percepções da influência da inteligência artificial em diversas áreas e seu impacto no futuro das profissões.
Questões como a robotização em atividades industriais; a eficácia dos algoritmos nos atendimentos do dia a dia e até mesmo nas vendas; seu uso nos diagnósticos médicos e até mesmo nas investigações policiais e na Justiça.
São inúmeras as suas possibilidades, assim como as dúvidas que nascem da utilização maciça da inteligência artificial impactando a todos seja de maneira mais direta ou indireta. E, claro, o futuro de muitas profissões colocadas em xeque!
A questão do trabalho parece ser o que mais preocupa os brasileiros de maneira geral. A pesquisa revelou que, conforme têm sido abordado com frequência pela mídia, algumas profissões tenderão a simplesmente desaparecer. Sete em cada dez brasileiros entrevistados acreditam que trabalhadores da indústria deverão ser cada vez mais substituídos por máquinas. Uma tendência que já vem sendo observada há algum tempo em linhas de produção ocupadas por robôs. Mas não só. Perguntados sobre outras profissões, a enquete constatou que mais de metade dos pesquisados acredita que contabilistas, faxineiras, motoristas e pesquisadores de mercado, entre outros, estão com suas profissões em sério risco. Já 1 a cada 3 ou 4 entrevistados crêem que até mesmo jornalistas, professores, enfermeiras e mesmo policiais podem desaparecer. Para os entrevistados, profissões como médicos, advogados e terapeutas aparentam estar menos ameaçadas.
Interessante notar que os riscos apontados pela pesquisa colocam a inteligência artificial atuando tanto nas atividades de produção tipo “mão na massa” como na coleta e análise de dados. Um leque amplo e profundo nas quais as novas tecnologias podem atuar.
Menos assustador e mais positivo quanto às suas consequências, a pesquisa revela as boas expectativas que as pessoas nutrem quanto à influência dessa inteligência artificial em áreas como a saúde, segurança e Justiça. 59% dos ouvidos pela pesquisa acreditam que a IA pode auxiliar os médicos, mas não substituí-los. Situação semelhante no que se refere ao sistema judicial. Apesar de sua contestada eficiência, de cada 10 consultados seis demonstram receio na fria decisão apresentada por dados e números enquanto apenas 27% dos entrevistados conferem apoio a uma realidade em que a inteligência artificial ditaria as sentenças judiciais. Já para a substituição de policiais, 31% ou 1/3 das pessoas que participaram da enquete consideram o uso da IA como uma boa alternativa às falhas humanas cometidas pelos representantes da lei.
Uma das menores resistências encontradas na pesquisa se refere à mobilidade urbana, tendo como pano de fundo a irresponsabilidade de motoristas que causam anualmente mais de 50 mil mortes no país. Mais de metade dos entrevistados se mostrou favorável à substituição de policiais rodoviários e motoristas por carros autônomos.
Para Fabián Echegaray, diretor-geral da Market Analysis e responsável pela pesquisa, “na medida em que cresça a frustração com o desempenho de alguns profissionais (médicos, motoristas, cuidadores) e algumas instituições (clínicas, polícia militar, justiça), e o discurso da efetividade e ganhos econômicos da robotização se popularizar, é provável imaginar um apoio maior para iniciativas que defendam um mundo governado por algoritmos”.
Difícil será imaginar que esse cenário realmente não se aprofunde. A inteligência artificial parece que veio mesmo para ficar e o que precisamos é que ela traga reais benefícios e não seja responsável por amplificar ainda mais problemas como a indiferença às questões sociais e a exacerbação a alguns dos principais desafios da humanidade, entre eles, as mudanças climáticas e a crescente radicalização ideológica.

*Exclusiva para Carta Capital