11 julho 2009

FORMIGA OU ELEFANTE: IMPACTOS SERÃO SEMPRE IMPACTOS

Reinaldo Canto* especial para a Envolverde

A busca por um mundo menos insustentável passa, necessariamente, pela conscientização dos pequenos e grandes impactos ambientais, causados por todo tipo de atividade humana, seja ela individual, coletiva ou empresarial. Todas elas merecem atenção e um grande esforço que, por vezes, requer profundas mudanças culturais e comportamentais. Uma delas é o exercício da cobrança sistemática que todos nós devemos fazer em relação às práticas adotadas pelos primeiro e segundo setores (público e privado, respectivamente).

Recentemente, ao prestar consultoria para um grande grupo empresarial, com fábricas em diversos estados brasileiros, reforcei minha convicção quanto à relevância do cidadão exercer seu poder de decisão de consumo e seu direito à informação. Quem já entrou numa fábrica com turnos ininterruptos e produção 24 horas vai entender o que vou dizer. Essa produção em escala possui um impacto enorme em consumo de água, energia e matérias-primas, independente do setor de atividades.
Agora multiplique isso pelas fábricas do mundo, seus milhões de trabalhadores, e imagine o quanto está se utilizando dos recursos naturais disponíveis e a imensa responsabilidade que todos esses grupos empresariais têm no intuito de zelar pelo futuro das próximas gerações.

Apenas como exemplo ilustrativo, a gigante mineradora Vale do Rio Doce é responsável sozinha, vejam bem, pelo consumo de 4,5% de toda a energia elétrica do País (Estadão, 25/06). Portanto, as decisões tomadas pelas cúpulas diretivas de grandes grupos, como a Vale, não devem ser vistas meramente como algo de cunho privado e de interesse apenas de seus stakeholders. Elas devem e precisam ser acompanhadas por todos os cidadãos, por toda a sociedade brasileira. Uma decisão que reduza ou aumente os impactos causados por grandes corporações afetam a todos nós de uma maneira ou de outra.

Como colaborador do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, trabalhei com informações e dados estatísticos que dão a exata noção da importância da mudança comportamental necessária e vital de cada indivíduo que habita nosso planeta. São atos cotidianos que, ao longo do tempo, provocam impactos significativos para o esgotamento dos recursos naturais disponíveis. Fechar uma torneira, reduzir o tempo de banho, deixar de usar o carro e desligar aparelhos elétricos são algumas das inúmeras medidas que todos nós, cidadãos e habitantes dessa querida esfera azul, devemos tomar para garantir a preservação dos recursos naturais.

Tive o cuidado de fazer essa colocação para deixar bem claro o meu apoio como pessoa e como profissional de comunicação a todas as iniciativas que visem conscientizar a população para a urgente necessidade de reduzir seus impactos ambientais. Mas quero destacar o poder do consumidor. Ao optar por um ou outro produto, por uma ou outra empresa, no seu ato de compra, esse consumidor estará fazendo uma opção de futuro. Ao tirarmos o dinheiro ou cartão de nossa carteira, estamos fazendo muito mais do que uma simples compra, estamos a referendar uma determinada maneira de fazer negócios. E isso independe do nosso grau de consciência e informação. O nosso agir diz sim ou não todo o tempo.
O fato de termos ou não informações suficientes para agir e escolher de forma consciente os produtos e serviços disponíveis será determinante para o futuro da humanidade.

Exercício do poder transformador

As organizações em geral são ciosas de suas marcas e têm estado atentas à movimentação dos consumidores, das organizações que os representam e da imprensa. Essa sensibilidade cada vez maior é um importante aliado para que suas decisões levem em conta seus impactos sociais e ambientais de maneira cotidiana e permanente.

Muitas empresas têm dado, cada vez com maior freqüência, demonstrações de que estão em busca de ações ligadas aos critérios de sustentabilidade. Nos últimos dias, inclusive, temos acompanhado decisões da iniciativa privada dignas de aplausos.

A divulgação do relatório do Greenpeace que apontou a pecuária como grande responsável pelo desmatamento ilegal na Amazônia causou diversas reações de setores públicos e privados. Primeiro a reação indignada do Ministério Público Federal ao exigir ações do poder público. Depois a decisão que obrigou as três maiores redes de supermercados do País, ou seja, Wal-Mart, Pão de Açúcar e Carrefour, a suspender a compra de carne das fazendas e frigoríficos suspeitos de cometer as ilegalidades apontadas pelo documento do Greenpeace. Já há alguns anos, ONGs ligadas ao consumo pediam que fosse feito esse rastreamento pelos próprios consumidores. Perguntei inúmeras vezes, em supermercados que frequento, qual a origem da carne ali vendida. A resposta, invariavelmente, era um “não sei”. Agora, a pressão exercida pelas principais redes de varejo criou um círculo virtuoso, repercutindo em toda a cadeia produtiva da carne e isso deve reforçar a voz do consumidor.

Depois do anúncio das redes varejistas, o Ministério Público do Pará informou que outras 35 empresas suspenderam compras de frigoríficos e fazendas que foram denunciadas pelo desmatamento. Portanto, o consumidor deverá se sentir ainda mais encorajado a perguntar no supermercado de sua região qual a procedência da carne. E não deveria parar aí. Esse é um exemplo motivador para que o consumidor fiscalize, exija o que lhe é de direito e denuncie os desmandos das empresas que atuarem de maneira irresponsável e insustentável em qualquer ramo de atividade.

Além do mais, o resultado dessa pressão legítima da sociedade e da iniciativa privada servirá para que os setores produtivos acabem por mudar outras realidades tão graves quanto a pecuária na Amazônia brasileira.

Setor público também pode e deve agir

Se diversos setores da iniciativa privada já estão a agir, a área pública também tem muito mais para contribuir com a coletividade do que, simplesmente, fazer cumprir as leis e recolher impostos da iniciativa privada. Notadamente no que se refere à sustentabilidade, não deve existir fronteiras nem limites para uma ação positiva. Contratar empresas que utilizem critérios de responsabilidade socioambiental é uma delas. Nossas autoridades também precisam enxergar além e, por meio dessa visão ampliada e de longo prazo, fazer a sua parte na cobrança, e no apoio a todas as iniciativas do setor privado que causem impactos positivos ou negativos para o conjunto da sociedade.

Um exemplo interessante foi o publicado pela Carta Capital (em edição de abril/2009), sobre a siderúrgica Belgo Bekaert Arames, que passou a usar a água da chuva como insumo. Isso foi possível graças a um sistema de coleta instalado nas unidades de Contagem (Minas Gerais) e Hortolândia (São Paulo). A água armazenada é utilizada para resfriar as máquinas durante o processo de produção de arames. Para se ter uma ideia do benefício dessa medida, a economia chega a 10 milhões de litros de água por mês, o que corresponde, segundo Carta Capital, ao consumo de uma cidade com 2,2 mil habitantes. Essa notícia me chamou a atenção, pois outras empresas poderiam adotar procedimentos semelhantes e, quem sabe, até contar com o apoio de autoridades públicas.

Qual a dificuldade dos chefes de executivo (prefeitos, governadores e presidente da República) e dos líderes do legislativo (senadores, deputados e vereadores) em sentarem com os líderes do chamado segundo setor, para discutir medidas que contribuam para reduzir o consumo de recursos naturais e as emissões de poluentes, o aproveitamento de materiais e reciclagem, entre outros processos que farão uma imensa diferença como vimos nos exemplos anteriores? E os cidadãos/eleitores/consumidores como agentes propagadores de pressão e transformação devem cobrar de seus representantes que atuem de maneira pró-ativa na busca pelo desenvolvimento sustentável.

As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e a escassez de recursos são razões suficientes para que abandonemos definitivamente a ideia de viver num mundinho restrito e compartimentado. Se a universalização dos problemas ambientais já é de conhecimento geral, as soluções também vão partir do esforço coletivo sem barreiras ou paredes.

O que precisa estar claro para todos nós, independentemente de raça, credo ou classe social, é que a máxima de Lênin para a guerra vale também para as questões que envolvem a sustentabilidade e o meio ambiente. Segundo o principal artífice da revolução russa, “Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra está interessada em você”. Fechar olhos, ouvidos e boca, definitivamente não é uma opção.

*Jornalista e Consultor, foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu

2 comentários:

MIF disse...

Muito interessante e nos ajuda a refletir e mudar as atitudes.

Carlos disse...

Reinaldo, parabéns.
A universalização dos problemas ambientais deve avançar para a cobranças sistemáticas de responsabilidades e ações. Principalmente do poder público e das grandes corporações. Para isso, nossa atitude é determinante. Antes de reclamar, devemos agir.