25 março 2011

Uma reflexão sobre a guerra urbana no cotidiano das cidades brasileiras

Viver em sociedade pressupõe, um certo grau de tolerância e respeito ao próximo e, muitas vezes, a subordinação de vontades.

Por Reinaldo Canto*

Viver em sociedade pressupõe, um certo grau de tolerância e respeito ao próximo e, muitas vezes, a subordinação de vontades, desejos e interesses particulares, em nome de uma convivência pacífica.

Infelizmente, não é o que vemos com freqüência em nossas cidades, notadamente, as maiores aqui em nosso país. A busca por uma relativa harmonia fica ainda mais prejudicada quando estão nítidos os gravíssimos problemas de infraestrutura, ou melhor, da falta dela, que potencializam dissabores e momentos de irritação de seus habitantes. Se a isso juntarmos a prepotência e arrogância de alguns que acreditam ter mais direitos que outros, o cenário está aí, montado sobre bases de um cotidiano cercado de batalhas e tensões permanentes.

Basta caminhar alguns metros em uma metrópole como São Paulo para flagrar inúmeros e repetitivos casos de desrespeito ao direito coletivo. São calçadas intransitáveis; lixos espalhados e jogados no chão ao lado de lixeiras; praças com bancos quebrados e monumentos depredados; além de ruas e avenidas mal sinalizadas e iluminadas, entre tantos outros problemas facilmente detectáveis.

Mesmo as pessoas menos propensas a atitudes condenáveis, acabam sendo “contaminadas” pela desordem geral, digo isso, porque não posso imaginar que sejamos todos ou a maioria composta de seres com instintos selvagens dispostos a fazer valer as máximas do “vale-tudo” e do “salve-se quem puder”.

Motoristas ensandecidos

Bem, tenho cá minhas dúvidas quanto a bipolaridade entre médico e monstro que acomete cidadãos ao adentrarem as suas máquinas maravilhosas. O pai carinhoso, o amigo fiel, o vizinho gentil e por aí vai, quando se vê solitário dentro de seu veículo, transforma-se como numa maldição, num maligno Mr. Hyde pronto a exibir uma ferocidade a qualquer um que ouse manifestar os mesmos direitos.

Os iguais são rechaçados e fustigados o tempo que durar a viagem e apenas mal tolerados, pois a verdade absoluta está sentada naquele banco de motorista e todos os outros sempre estarão errados. Já aos desiguais, a esses não resta absolutamente nenhuma clemência. Pedestres que façam menção de atravessar na faixa reivindicando esse direito serão agredidos e ameaçados verbalmente, quando não atropelados, para que não restem dúvidas de sua insignificância e inferioridade. Bicicletas, também não poderão ter outro destino, vide o caso de Porto Alegre, cuja ousadia foi punida por, blasfêmia maior, reivindicar melhores condições de mobilidade.

Os motoristas histéricos que buzinam escandalosamente nas situações mais triviais, os que agem em flagrante desrespeito as leis e ainda os que colocam a sua vida e dos outros em risco devem estar, sob domínio de algum surto psicótico e têm usado seus veículos com freqüência cada vez mais assustadora, como arma letal. As autoridades do trânsito, bem como os responsáveis pelos testes para aquisição ou renovação da carteira de habilitação deveriam ter condições de punir e prevenir, alguns desses comportamentos inaceitáveis com a perda da licença para dirigir.

Triste resultado

Infelizmente ainda teremos muitas razões para crer que esse quadro deverá se agravar. Uma pesquisa divulgada no mês passado demonstra o quão longe estamos de uma mudança.

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), um em cada quatro brasileiros afirma que, pasmem, mesmo que o transporte coletivo fosse eficiente, não deixaria de usar o carro como principal meio de deslocamento diário. Entre as diversas argumentações estão o fato dos entrevistados considerarem o transporte coletivo ruim e ineficiente. Quanto a isso não há o que discutir, até porque 44,3% dos ouvidos pela pesquisa são usuários desse tipo de transporte.

Em geral, o que a pesquisa revela, é a falsa ilusão de que todos os problemas serão resolvidos quando o cidadão adquirir seu carro. Apesar de todos os problemas do trânsito caótico das cidades brasileiras, as pessoas ainda sonham com o transporte individual como se com ele, fosse possível alcançar o nirvana, o paraíso, a felicidade suprema. Ledo engano!


A barbárie do eu sozinho

Uma sociedade se constrói com a busca por soluções sustentáveis em que prevaleçam os interesses coletivos sobre os individuais. Obviamente numa democracia baseada nos pilares da livre iniciativa nos quais estamos inseridos, direitos individuais e de minorias devem ser respeitadas. Mas o que preocupa no atual cenário é a motivação, de uma parte significativa da população, pelo desejo de encontrar caminhos pessoais e particulares.

Por seu lado, as nossas autoridades públicas de olho nos votos e no atendimento a essas solicitações, gastam fortunas com obras viárias sem futuro estimulando o uso do transporte individual. Assim, as cidades vão sendo ocupadas, rasgadas e desfiguradas, para, ao invés de servir como espaço de convivência agradável para seus habitantes, transformar-se em vias congestionadas e cada vez mais estressantes e violentas.

Para que tenhamos qualidade de vida no futuro é preciso urgentemente frear esse processo insano e contraproducente. Construir as bases para uma cidade que priorize a implementação de políticas e investimentos de planejamento urbano garantindo a todos direitos iguais de acesso, mobilidade e de uso dos equipamentos e espaços públicos. Ações do poder público que não visem reduzir as enormes desigualdades e que não trilhem o caminho do desenvolvimento sustentável devem ser colocadas em segundo plano ou mesmo descartadas.

*Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.

Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/uma-reflexao-sobre-a-guerra-urbana-no-cotidiano-das-cidades-brasileiras-3

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(Envolverde/Carta Capital)

20 março 2011

VI FÓRUM ÁGUA EM PAUTA

DIAS 21 E 22 DE MARÇO

Venha discutir a importância do jornalismo na conscientização sobre o uso racional da água e o investimento em saneamento básico.

Descubra o valor que a água tem. E beba um copo dela conosco.


21 de Março
10h00 - Coffee Receptivo e entrega do material de apoio

10h30 - Abertura Solene

11h00 - Conferência de Abertura
“Água e Saúde”
Em artigo publicado na Proceedings of The Royal Society, o cientista Dr. Christopher Eppig aborda os resultados de um estudo que mostra a relação de doenças infecciosas com o QI de populações de baixa renda, localizadas em países pobres. Além de comentar as principais conclusões deste estudo, ele irá traçar um panorama da relação entre saúde, saneamento básico e água, especialmente no Brasil.

13h00 - Intervalo Almoço

14h30 - Painel I - Saneamento Básico
“Saneamento básico: dados, fatos e sensibilização pública”
Esse painel tem como objetivo fornecer elementos objetivos para a compreensão da importância do saneamento como política pública e discutir estratégias de sensibilização social e jornalística para o tema. A partir de dados de investimento, os painelistas serão estimulados a pensar em uma agenda jornalística positiva que contemple, de maneira sistemática, a cobertura ligada a saneamento básico no país em seus mais diversos aspectos.

16h00 - Intervalo coffee

16h15 - Painel II - Indústria e Água
“Água e produção industrial: estamos preparados para crescer com sustentabilidade?”
As expectativas de crescimento do PIB brasileiro dependem significativamente do crescimento da produção industrial. Ambientalistas e jornalistas perguntam-se qual o preço a ser pago pelo desenvolvimento, enquanto os setores industriais identificam maneiras de crescer de maneira sustentável e regulada. A indústria é uma das maiores consumidoras de água e procura novos meios de produção com redução dos impactos. Discutir esse panorama é o objetivo do Painel II.

22 de Março
11h30 - Painel III - Conservação dos Mananciais e Políticas Públicas
A fonte: como monitorar a qualidade dos mananciais e discutir, nos meios de comunicação e jornalismo, as políticas públicas de preservação ambiental dos mananciais, procurando novas formas de financiamento, divulgação e conscientização sobre a finitude dos recursos hídricos e a importância de resguardar os rios, os aqüíferos, lagoas, riachos e córregos.

13h30 - Intervalo Almoço

15h00 - Speech: Água e suas Fontes

15h30 - Conferência de Encerramento: Planeta China: Terra, Água e Alimentação
Como a China busca resolver o problema da alimentação de 1 bilhão e meio de habitantes em 2025?

PAINELISTAS


Carolina Mota
Procuradora da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP


Christopher Eppig
Cientista, biólogo e concluinte de pós-doutorado, pela Universidade do Novo México, Albuquerque (EUA)


Dan Robson Pereira Dias
Diretor da By Dan. Responsável pela expedição do projeto Flutuador do Rio Tietê


Jaderson Spina
Secretário de Planejamento e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Jundiaí.


Jayme Martins
Overchina e ex-China Radio International e correspondente do Estadão na China


Prof. José Luiz Proença
AUN - Agência Universitária de Notícias (ECA/USP)


Junior Ruiz Garcia
Pesquisador do Instituto de Economia / Universidade Estadual de Campinas


Marussia Whately
Arquiteta e urbanista


Milena Venancio Serro
Coordenadora de Comunicação do Instituto Trata Brasil


Reinaldo Canto
Colaborador da Envolverde e colunista de Carta Capital, além de atuar como consultor, palestrante e articulista


Mini currículo

Reinaldo Canto é jornalista formado pela Cásper Líbero e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento pela UFRJ. Com 31 anos de profissão, passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do país, entre elas, Record, Globo, SBT, Bandeirantes e Jovem Pan, trabalhou como assessor de imprensa de grandes empresas como Banespa e Cosesp, além de ter sido colaborador de revistas da Editora Abril como Arquitetura e Construção e Casa Claudia. Nos últimos anos especializou-se em sustentabilidade e consumo consciente. Nesse período foi Diretor de Comunicação do Greenpeace, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, passagens pela comunicação do Instituto Ethos e correspondente da Carta Capital, da Envolverde e de outras mídias ambientais na COP-15 em Copenhague. Hoje Reinal do Canto é consultor, palestrante, articulista e colaborador da Envolverde e mídias ambientais, além de editor e redator de relatórios de sustentabilidade e colunista de Carta Capital (coluna: Cidadania & Sustentabilidade, em www.cartacapital.com.br).



Sidney Mazzoni
Editor-chefe do Jornal de Jundiaí

COLUNA EM NOVO ENDEREÇO

A coluna Cidadania & Sustentabilidade também está sendo veiculada pelo site Ciranda no Bairro - Guia de Informações e Entretenimento para os bairros Cursino, Ipiranga, Saúde e Sacomã, da capital paulista.

Confiram:

http://www.cirandanobairro.com.br/?area=colunistas&coluna=8&secao=postagem&id=30

11 março 2011

Parabéns São Paulo chegamos aos 7 milhões de carros!

Por Reinaldo Canto*


Segundo o Detran, a cidade vai atingir essa impressionante marca até o fim de março. Mas afinal, tal fato é digno de júbilo ou de pesar?

A resposta para o questionamento acima mencionado irá depender, obviamente, do ponto de vista e dos valores do observador.

Para os adeptos da velha economia e amantes do transporte individual a notícia poderá ser motivo de comemorações. Esses hão de considerar que o expressivo número significa que São Paulo transformou-se numa metrópole digna do primeiro mundo, com uma economia pujante e próspera, na qual cada vez mais pessoas podem satisfazer seus desejos de consumo.

Já para aqueles que compartilham os valores do desenvolvimento sustentável e da melhoria da qualidade de vida, a informação causa, no mínimo, um certo desânimo. Simboliza uma vitória do retrocesso e do passado em detrimento da construção de uma cidade mais equilibrada e amigável para se viver.

Números não mentem

Algumas informações adicionais são importantes para que os indecisos possam fazer suas escolhas. Segundo matéria publicada pelo caderno Metrópole do jornal O Estado de São Paulo baseada em dados fornecidos pelo Detran, em 1970, a capital paulista tinha registrados 965 mil veículos para 14 mil quilômetros de vias. Já para os 7 milhões de veículos existem hoje na cidade, 17 mil quilômetros de ruas e avenidas pavimentadas. Não é por outra razão que os congestionamentos por estas bandas são cada vez mais freqüentes.

Espanta também o fato da frota de veículos crescer seis vezes mais rápido que a população de São Paulo. Já temos mais veículos por habitante (630 para cada mil paulistanos) do que Japão (395), Estados Unidos (478) e Itália (539 veículos para cada mil italianos).

Direito fundamental

Contribui de maneira decisiva para esse crescimento descomunal um fator cultural bastante disseminado em nosso país: o sonho de possuir um carro próprio.

Ouço com insistência que o estabelecimento de medidas de cerceamento a venda de veículos, seria uma indesculpável discriminação com as classes C e D que, graças às facilidades do crédito, finalmente podem adquirir carros com prestações que caibam nos seus bolsos.

Segundo essa lógica ser proprietário de um veículo de passeio seria um direito inalienável tanto quanto os direitos a saúde, alimentação, moradia e educação. Mas é preciso, antes de mais nada, levar em conta as necessidades da sociedade como um todo. Aí sim, um dos principais direitos fundamentais fica enormemente prejudicado com o entupimento das nossas vias por esses veículos de passeio, ou seja, o direito de ir e vir. E pelo que podemos assistir, antes de melhorar, essa situação deve piorar ainda mais.

Ignorância e insanidade

A marca de 7 milhões de veículos em breve será superada, pois as vendas continuam a crescer de maneira acelerada e constante. Portanto, devemos esperar congestionamentos cada vez maiores, pessoas estressadas e também o aumento dos casos de doenças provocadas pela poluição que já matam cerca de 20 pessoas todos os dias na região metropolitana, segundo o Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Além de entupir as ruas de nossas cidades e ampliar os níveis de poluição do ar, a cadeia de produção da indústria automobilística é intensiva em uso de energia, água e matérias-primas extraídas sem pudor nem dó da natureza. Isso significa que, do ponto de vista do planeta, essa atividade é totalmente insustentável e, portanto, sem futuro, seja pelo bem ou pelo mal.

Mudanças necessárias em todos os setores

Essa espiral de insanidade que a todos prejudica indistintamente, pode e deve ser interrompida. Talvez possa começar pela questão psicológica rompendo com o ego, como Dal Marcondes outro colunista de Carta Capital lembrou bem em artigo recente (http://www.cartacapital.com.br/carta-verde/carro-extensao-das-pernas-ou-do-ego).

Possuir um carro, não faz uma pessoa melhor que fique isso bem claro! Conclusões no sentido oposto também devem ser evitadas, a ausência de um carro na garagem não é um inequívoco sinal de fracasso.

Outro ponto a se levar em conta é a busca pela convivência harmônica entre os habitantes da capital. A prevalência do individual sobre o coletivo é um dos fatores que faz de São Paulo uma cidade difícil de viver. Uma cidade deve ser de todas as pessoas que nela residem ou transitam. Ruas, avenidas, calçadas, pontes e viadutos deveriam ser locais mais agradáveis para o deslocamento cotidiano e não de disputa insana pela ocupação de pequenos espaços a qualquer custo.

Caminhos para mudar essa realidade existem e são até mais simples do que parecem. No campo individual, por exemplo, mesmo que você ame seu carro, evite o seu uso em toda e qualquer circunstância sempre que possível. Você verá que andar a pé, de bicicleta ou de transporte coletivo pode ser bem interessante e agradável.

Por outro lado, é preciso também exigir que as nossas autoridades públicas façam pesados investimentos em transportes coletivos e deixem de gastar dinheiro do orçamento com obras viárias. Quase sempre são obras muito caras que privilegiam e incentivam o uso de carros de passeio. Campanhas e fiscalização maciças para questões como respeito a faixa de pedestres, reforma de calçadas e garantia de acessibilidade vão contribuir para uma gradual e benéfica transformação em prol de uma metrópole mais sustentável e feliz.

*Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.

**Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/parabens-sao-paulo-7-milhoes-de-carros

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(Envolverde/Carta Capital)

25 fevereiro 2011

A porta dos fundos do ensino “superior”

Por Reinaldo Canto*



Primeiro contato de muitos jovens com a faculdade começa com trotes violentos e humilhantes. O que esperar depois?

Todos os anos, nesta época, a triste cena se repete em dezenas de universidades. Calouros chamados de bichos são agredidos e obrigados a cumprir ordens de veteranos alterados e histéricos. Por vezes alguns desses novos universitários enfrentam situações ainda mais graves sofrendo traumas psicológicos, ferimentos e nos casos extremos, até mesmo a morte.

O mais comum é vermos jovens cobertos de tinta pedindo dinheiro nos cruzamentos para a compra de bebidas alcoólicas. As pessoas, com algumas poucas exceções, observam esse espetáculo, mais parecido com um circo de horrores, com complacência e mesmo simpatia. Claro, diriam muitos deles, são jovens comemorando um momento especial de suas vidas. Será mesmo?

Então, vejam abaixo algumas das manchetes de imprensa selecionadas aleatoriamente nas duas últimas semanas:

- Trotes com álcool levam calouros a posto médico;

- Faculdade é criticada por trote violento;

- Trote teve direito a desfile de “bixetes” sobre passarela de calouros;

- Universidade investiga trote com fezes de animal e urina;

- Três calouros são internados em coma alcoólico após trote.

(Tomei o cuidado de não citar os estabelecimentos e as cidades, pois fiz apenas um apanhado sem qualquer pretensão estatística, só ilustrativa).

Bem, diante desses fatos fartamente divulgados pelos veículos de comunicação, proponho uma reflexão:

O que esperar do futuro desses jovens? Qual a responsabilidade desses estabelecimentos ditos de ensino superior?

Os administradores dessas faculdades e universidades costumam fazer vistas grossas aos trotes. A alegação mais comum é de que não é possível controlar a ação dos estudantes que ocorrem em pontos diversos, muitas vezes fora do estabelecimento de ensino.

Lavar as mãos não parece ser a atitude correta de dirigentes universitários responsáveis pela formação das futuras lideranças do país. É preciso romper esse círculo vicioso e gratuito, e criar junto com seus estudantes, familiares e funcionários, alternativas mais amigáveis e construtivas.

Esses mesmos gestores, que nada fazem diante de casos de trotes violentos, deveriam refletir se estão realmente contribuindo para a formação de homens e mulheres aptos a construir um mundo melhor para se viver. Algo tão marcante para um jovem, que é o ingresso numa faculdade, não deveria ocorrer de uma maneira mais positiva e gratificante a ser lembrado pelo resto de suas vidas?

Ao permitir atos de barbárie logo na porta de entrada, dirigentes omissos, nada estarão contribuindo para a disseminação de valores como ética, respeito, solidariedade e compromisso com o futuro. Pelo contrário, estarão prestando seu apoio, mesmo que involuntário, a um mundo em que prevalece a prepotência, a selvageria e a truculência. Esse calouro maltratado, fatalmente tenderá, a reproduzir os mesmos atos nos anos seguintes.

A faculdade tem a obrigação de criar um ambiente propício ao desenvolvimento de seus estudantes. É um tempo e espaço preciosos na vida dos jovens que deve ser bem aproveitado para a troca de experiências e enriquecimento pessoal.

Enxergar a importância da universidade

Mas se as faculdades possuem responsabilidades inerentes à formação e educação de seus alunos, estes por sua vez também devem assumir um compromisso junto à sociedade que representam.

Segundo dados do MEC, o Brasil possui 5 milhões de estudantes universitários, sendo que a esmagadora maioria, ou 90% cursam faculdades particulares. No universo populacional de quase 200 milhões de habitantes essa classe com representação menor que 3% pode ser considerada a elite da elite ou como diriam os franceses .

Um jovem que tem a oportunidade de cursar uma universidade precisa ter em mente a responsabilidade de integrar um seleto grupo de privilegiados. Uma elite que deveria pensar e trabalhar pela construção de um Brasil melhor para o seu povo.

O desafio vai além de enxergar a faculdade como um mero caminho para se alcançar o mercado de trabalho. É preciso ser um profissional preparado a desempenhar habilidades técnicas, mas também repleto de valores fundamentais para o exercício de uma vida saudável em sociedade. Princípios éticos, solidários, livres de preconceito e com um olhar apurado para o respeito aos direitos das pessoas. Enfim, jovens com sólida formação humana e intelectual capazes de reverter em benefício de toda a sociedade, a confiança neles depositada.

Trotes solidários para o início de um processo de mudança

Uma maneira de romper com esse ciclo de inércia é exatamente colocar nossos jovens na linha de frente do voluntariado. Nesse sentido, as universidades deveriam criar condições e incentivar estudantes, por meio de palestras, eventos e programas específicos que envolvam atividades de cunho social e ambiental. Conhecer e colaborar com as diversas realidades que compõem o nosso país. Valores como cidadania, solidariedade e tolerância poderiam ser cultivados, inclusive, logo na entrada desses estudantes na universidade. Essas ações poderiam muito bem substituir os trotes medíocres e sem sentido.

É preciso mudar essa rota e desde já trilhar o caminho da construção de uma nova visão. Uma visão de sustentabilidade onde todos atuam e todos ganham, sejam eles estudantes, trabalhadores ou empresários. A Sociedade brasileira, com certeza, irá agradecer e recompensar essa nova elite mais comprometida com o futuro do país.

*Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.

**Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-porta-dos-fundos-do-ensino-superior

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19 fevereiro 2011

É a comida, estúpido*

Por Reinaldo Canto**



O mundo, assim denominado “rico e democrático”, comemorou a queda de persistentes e longevas ditaduras na Tunísia e no Egito. Esse mesmo mundo “rico e democrático” também exultou, recentemente, os sinais da retomada do crescimento global no Fórum Econômico de Davos.

Como diria a música da Blitz, “tudo muito bom, bom, tudo muito bem, bem”, se não fosse uma questão que vem sendo tratada de maneira bastante marginal dada a sua importância e urgência: a crise mundial de alimentos!

Quem acompanhou a cobertura passo a passo das manifestações que tomaram, primeiramente, as ruas de Túnis capital da Tunísia e até dias atrás as ruas e a agora globalmente conhecida Praça Tahrir, no Cairo, viu, ouviu e leu, os líderes da oposição e a própria população declararem estar fartos de corrupção, repressão e ávidos por liberdade. Mas esse contundente, basta! ocorreu, no caso da Tunísia, 23 anos depois da tomada do poder de Zine El Abidine Ben Ali e no caso do Egito após 30 anos da ditadura de Hosni Mubarak. E por que só agora?

Ao lado de fatores políticos, sociais e tecnológicos (redes sociais, internet e celulares contribuíram para disseminar as informações sobre os protestos), o aumento no preço dos alimentos é algo que não pode ser visto como secundário nos protestos.

Segundo a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), em dezembro de 2010, os preços do trigo, óleo, milho, arroz, carne e leite tiveram aumentos recordes. O milho sofreu reajuste de 60%, o trigo de 43% e o açúcar aumentou 77%.

O aumento no preço dos alimentos afeta a todos, mas os países africanos estão entre os que importam a maior parte da comida consumida por seus povos. O Egito se destaca como um dos maiores importadores do mundo, principalmente cereais. Como em outros países árabes ao lado do Egito, entre eles a Tunísia e a Argélia, as famílias gastam de 40% a 50% da renda na compra de alimentos.

A comida mais cara agravou o problema do desemprego, já crônico entre os jovens dos países citados. E esses fatores estão muito longe de se restringir apenas as nações já convulsionadas por rebeliões. A situação ainda tende a se agravar.

Além da redução das áreas de plantio em razão da degradação do solo e das mudanças climáticas, além do uso de terras agricultáveis para a produção de biodiesel, a China aparece como outro grande fator de desestabilização. A previsão é a de que o gigante asiático irá importar 8 milhões de toneladas de milho e, tal volume deverá dobrar até 2015.

Será coincidência que tenha sido exatamente no continente africano, o mais afetado pela escassez e subida de alimentos, o palco de duas revoluções quase simultâneas?

Alguém acredita que, subitamente, a população egípcia decidisse derrubar Mubarak por apenas almejar a democracia. Adoraria acreditar que sim, mas tenho cá minhas dúvidas.

Até mais grave que o problema dos preços e da escassez dos alimentos está a incapacidade de nossas lideranças de enxergar os caminhos que busquem as soluções. Quando tentam, invariavelmente, reduzem a uma questão em defesa de interesses de fronteiras ou blocos.

É o caso da proposta do presidente francês, Nicolas Sarkozy, de controlar o preço das commodities. Felizmente, essa ideia não avançou quando apresentada no Fórum de Davos, o que traria ainda maiores problemas, pois o prejuízo seria grande para os países pobres exportadores de alimentos.

Como dito anteriormente, pensar o mundo em blocos e fronteiras é no mínimo burro. Todos os dias nos chegam sinais mostrando que a vida no planeta depende de visões e soluções globais. A sustentabilidade precisa parar de ser vista como utopia e sonho de ambientalistas. Ou trabalhamos em busca de um mundo mais sustentável ou teremos um futuro incerto e perigoso.

Enquanto assistimos a queda de ditaduras vemos motivos para comemorar e nos solidarizar com esses povos, mas o fato é que a crise de alimentos não vai se restringir aos países autoritários. Mesmo as democracias não estarão seguras se as pessoas não tiverem o que comer.

*O título do artigo é uma adaptação livre para o bordão “É a economia, estúpido!” usado na disputa presidencial de 1.992 nos Estados Unidos pela campanha vitoriosa de Bill Clinton. Naquele ano Clinton derrotou Bush pai que tentava a reeleição, ao chamar atenção para as reais preocupações do povo norte-americano.

**Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.

Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/e-a-comida-estupido

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(Envolverde/Carta Capital)

17 fevereiro 2011

2º Prêmio Fecomercio de Sustentabilidade: Inscrições terminam dia 28 de fevereiro

Federação e Fundação Dom Cabral prorrogam as inscrições para a segunda edição do Prêmio que visa estimular práticas sustentáveis e instituir novas formas de relacionamento entre empresas, governo e consumidores



As inscrições para o 2º Prêmio Fecomercio de Sustentabilidade vão até 28 fevereiro de 2011. As inscrições podem ser feitas no site www.fecomercio.com.br/sustentabilidade . A premiação acontecerá em abril.



As inscrições e premiação foram distribuídas em três categorias, com algumas subcategorias: Empresa (Microempresa, Pequena/Média Empresa, Grande Empresa e Entidade Empresarial); Órgão Público e Academia (Professor e Estudante). O primeiro colocado de cada categoria/sub-categoria receberá como prêmio um título de previdência correspondente ao valor de R$ 15 mil.



O prêmio aborda nesta segunda edição o tema dos Princípios do Varejo Responsável. A escolha dos projetos vencedores seguirá critérios de avaliação como:benefícios sociais, ambientais e econômicos gerados na organização após implantação do projeto, alinhamento da prática relatada com um ou mais princípios fundamentais do Varejo Responsável, número de pessoas, organizações e regiões beneficiadas pelo projeto e a capacidade de aplicação do projeto em outras entidades.



Os materiais inscritos serão analisados por uma banca julgadora, formada pelos setores empresarial, público e órgãos públicos. Saiba mais sobre o prêmio e faça a inscrição do seu projeto no site: www.fecomercio.com.br/sustentabilidade