17 junho 2013

Os espaços públicos podem e devem ser ocupados

As manifestações contra a tarifa dos ônibus são apenas um passo no longo processo de construção da democracia e da cidadania

Por Reinaldo Canto*

Os recentes protestos não deveriam ser razão de tanto espanto, a ponto de causar reações indignadas vindas de setores mais conservadores ou mesmo acomodados da sociedade brasileira (tão pouco acostumadas a manifestações cidadãs de revolta e rebeldia).
Nesse sentido estivemos durante muitos anos - aliás, desde o estabelecimento da ditadura - desacostumados a grandes demonstrações civis de descontentamento generalizado.
Com exceções de algumas delas cobertas de consenso como as Diretas Já ou o Fora Collor, as concentrações estiveram sempre ligadas a setores específicos como greves de professores, metroviários que atuavam especificamente nas questões salariais e melhorias nas condições de trabalho.
Muito diferente é quando surgem nas telas da tevê milhares de pessoas em marcha pelas principais avenidas de São Paulo acompanhadas de imagens de lixos revirados, vidraças quebradas e cabines policiais incendiadas. Parece o fim dos tempos.
A clara distorção ao não mostrar o outro lado contribui para que muitos tenham a sensação de estarmos cercados de baderneiros.
A verdade nesses tempos de smartphones, facebooks e comunicações instantâneas não tardam a aparecer e derrubar os argumentos de mídias conservadoras que insistem em colocar os manifestantes na fácil alcunha de “vândalos”, “baderneiros sem causa” e outras adjetivações, inclusive de baixo calão.
Na vã tentativa de criar uma realidade paralela baseada em condomínios fechados, carros blindados e saúde privatizada, a nossa pretensa elite tenta se manter distante e alheia à construção de uma sociedade mais equilibrada, justa e sustentável.
Os espaços públicos que deveriam servir a todos acabam sendo paulatinamente “roubados” da sociedade em nome do progresso ou abandonados e deteriorados.  Parece que às nossas autoridades será melhor que as pessoas frequentem os paraísos de compras, os conhecidos shopping centers, do que passar um belo domingo de sol em parques e praças públicas. No lugar da integração fica a exclusão com todo o mal que trás as relações sociais.
Mas as inúmeras manifestações que vêm ocorrendo em todo o mundo, pelas mais diversas razões, carregam em seu íntimo o inconformismo de muitos pelo direito à liberdade de expressão. E aqui não poderia ser diferente, mesmo que tivesse demorado a chegar.
Os problemas das metrópoles brasileiras estão aí expostos para quem quiser ver e é praticamente impossível negá-los: dificuldades de mobilidade cada vez maiores (incentivo ao uso e compra do automóvel em detrimento do transporte público); deterioração de bairros e regiões inteiras (em nome da especulação imobiliária); falta de segurança; a ausência, enfim, de políticas públicas que busquem efetivamente contemplar a maior parte da população e só faz agravar as consequências dos desequilíbrios.
Os jovens e os não tão jovens que decidiram agora ocupar os espaços públicos estão resgatando o óbvio: em primeiro lugar, o direito inalienável de se manifestar. Já a nossa polícia, ainda sob os resquícios de tempos tristes e obscuros, demonstra não estar preparada para receber a incumbência de proteger os manifestantes, mas de reprimi-los a todo custo, pois em sua formação militar o espaço público possui a mera função de se manter livre e desimpedida, apenas para a circulação, o fluxo “ordeiro” determinado por seus superiores.
Quando milhares de pessoas tomam as ruas, nossos policiais passam a encará-los como verdadeiros combatentes inimigos, uma turba selvagem a corromper a ordem e o progresso. Entre esses “adversários do mal” também se encontram jornalistas como o colega desta CartaCapital, Piero Locatelli, preso por de portar uma poderosa e ameaçadora garrafa de vinagre.
Assim como em outros países, as manifestações só estão começando.
Os tais 20 centavos de aumento para um transporte público de má qualidade foi apenas o estopim para outras, que certamente virão.
Nossas autoridades, antes de condenar alguns poucos atos de pretenso “vandalismo”, devem estar atentas às reivindicações e priorizar o interesse coletivo. Tratar a todos com respeito e buscar o diálogo trarão mais benefícios do que o enfrentamento irracional.
*Publicado originalmente no site da revista Carta Capital

07 junho 2013

Lixo: muita sujeira para baixo do tapete

Novo relatório sobre a situação dos resíduos sólidos no país revela a falta de entendimento generalizado sobre a gravidade do problema.

A sociedade brasileira, com raras e honrosas exceções, segue acreditando em mágica e fenômenos milagrosos dignos de feiticeiros e curandeiros dos tempos mais primitivos. Só a completa ignorância a envolver autoridades públicas, iniciativa privada e população em geral para desconhecer de maneira tão persistente e descontrolado aumento na geração de lixo, ou melhor, resíduos sem que isso traga consequências nefastas para todos.
A crença semelhante aos de mitos tradicionais como Papai Noel e Coelhinho da Páscoa é, nesse caso, transposto sem qualquer dificuldade para um mundo pretensamente adulto, em relação ao fantástico desaparecimento dos sacos de lixo. Algo extraordinário a rivalizar com as maiores façanhas de grandes mágicos. Pois basta colocar na porta de casa ou ao fim de um dia de trabalho intenso de uma loja ou restaurante para que aquele material descartado simplesmente desmaterialize de maneira inodora e indolor.
Só assim para entender as conclusões do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, divulgado recentemente pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais). Em 2012 a geração de lixo por habitante chegou à casa dos 383 quilos anuais, o que representou quase 64 milhões de toneladas de resíduos gerados no País durante o ano passado. Os números correspondem a um aumento de 1,3% em relação ao relatório de 2011, maior do que o crescimento populacional de 0,9% constatado no mesmo período.
Mais grave do que o aumento progressivo na geração de resíduos é a quantidade de 24 milhões de toneladas que tiveram uma destinação irregular, ou seja, descartados no mínimo de maneira inadequada em aterros apenas controlados, lixões e até mesmo em rios, córregos e terrenos sem qualquer preparo para receber esses materiais. Lembra-se do incrível caso dos sacos de lixo que desintegraram citados acima? Pois bem, está aí uma boa parte deles. Exatamente o que acontece em uma boa mágica, apenas uma ilusão de ótica ou coisa parecida. O descarte irregular traz prejuízos imensos em forma de doenças, poluição e a consequente perda de qualidade de vida.
As cidades na contramão 
São mais de 3 mil municípios brasileiros que ainda não tratam a gestão de resíduos como algo prioritário e urgente na administração pública. Mesmo sendo um fator que pesa no orçamento municipal, uma parte considerável dos nossos prefeitos pouco faz para mudar essa realidade. Perguntados pelos pesquisadores responsáveis pela elaboração do Panorama de Resíduos Sólidos, entre os mais de 5.500 municípios do País, 60% informaram realizar algum tipo de coleta seletiva. Portanto, outros 40% responderam negativamente à pergunta. Isso significa que mais de 2.200 cidades do País não realizam a separação de materiais que vão integralmente para aterros e lixões - que, em sua maioria, estão em situação de esgotamento.
A publicação do relatório com os dados relativos a 2012 fechou o ciclo de dez anos em que a Abrelpe realiza esse levantamento. Entre algumas poucas boas notícias, tais como o aumento da destinação mais correta e um pequeno crescimento na reciclagem, nessa década de pesquisa tivemos o agravamento dos problemas que envolvem a geração de resíduos. Só para ficar em um número emblemático, há dez anos eram recolhidas 166 mil toneladas de lixo por dia e agora esse montante atingiu a marca de 201 mil toneladas diárias. Enquanto, no período, a população brasileira cresceu pouco menos de 10%, a geração do nosso lixo de cada dia subiu para 21%.
Falta pouco mais de um ano para que a Política Nacional de Resíduos Sólidos entre definitivamente em vigor. Mesmo assim nos afastamos cada vez mais de seus principais objetivos: gerar menos resíduos, eliminar lixões e, efetivamente, formar uma cadeia produtiva baseada na logística reversa e no reaproveitamento e reciclagem de materiais capazes de criar empregos e eliminar problemas que afetam, de uma maneira ou outra, a todos nós brasileiros.
Assim como precisamos entender que os sacos de lixo não desaparecem e já não tem mais tanto tapete para empurrar a sujeira, a responsabilidade também precisa ser entendida como algo compartilhado, pois a solução só será alcançada com a participação de todos, sejam governos, empresas ou cidadãos.

03 junho 2013

Plante árvores com a ONG Iniciativa Verde na Virada Sustentável

Frequentadores do Parque Villa-Lobos terão a oportunidade de plantar mudas de Mata Atlântica e conhecer de perto o trabalho da organização

Reserve na agenda o dia 9 de junho, domingo. Na data, a ONG Iniciativa Verde realizará um Plantio Simbólico. A ação contará com  mudas de árvores diversas disponibilizadas pela instituição para que os visitantes do Parque Villa-Lobos, localizado na Zona Oeste de São Paulo, plantem a sua árvore dentro de área indicada. Este evento faz parte do calendário oficial da Virada Sustentável de 2013.
O plantio será aberto às pessoas de todas as idades, sejam elas frequentadoras do parque, participantes da Virada Sustentável ou convidados. As pessoas terão a oportunidade de conhecer as árvores da Mata Atlântica, aprender a plantar as mudas corretamente e se divertir colocando a mão na terra. Além disso, será realizada uma breve palestra sobre as ações da Iniciativa Verde e que explicará a importância do reflorestamento de áreas de preservação.

Por que plantar árvores é importante?
O principal objetivo da ação é chamar a atenção da população para a importância da recomposição. Na cidade, as árvores embelezam a paisagem, melhoram a qualidade do ar, fornecem sombra, ajudam a reduzir a sensação de calor e atuam no combate às enchentes.
Além disso, as árvores absorvem o gás carbônico presente em nossa atmosfera. Dessa maneira, elas contribuem para reduzir os efeitos do aquecimento global. No meio rural, as florestas como a Mata Atlântica são fundamentais para a manutenção da biodiversidade e da qualidade dos recursos hídricos.

O que a Iniciativa Verde faz?
Ela é uma organização não governamental (ONG) que tem como missão o combate às mudanças climáticas impulsionadas pelas ações humanas. Para tal, a Iniciativa Verde realiza compensação das emissões de gases de efeito estufa restaurando a Mata Atlântica e faz inventários de carbono de empresas ou de outras instituições interessadas. Além disso, a ONG trabalha com projetos de educação ambiental e desenvolve pesquisas relacionadas às mudanças climáticas e à Mata Atlântica.

Plantio Simbólico
Data: 9 de junho de 2013
Horário: 12h
Local: Parque Villa-Lobos
Endereço: Avenida Professor Fonseca Rodrigues, 2011 - Alto dos Pinheiros (São Paulo)

Saiba mais sobre as ações da Iniciativa Verde no site: www.iniciativaverde.org.br

Informações para imprensa

Reinaldo Canto: (11) 99976-1610, reicanto@uol.com.br ou imprensa@iniciativaverde.org.br

20 maio 2013

Perigo no ar

O importante é não ficar parado e agir. Enquanto a água não ferver sempre teremos a chance de pular da panela e apagar o fogo

Por Reinaldo Canto*


Para a maioria da população deve ter passado despercebida a informação de que a nossa atmosfera atingiu uma concentração recorde e inédita de 400 ppms (400 partes por milhão) nos níveis de CO2,o famoso dióxido de carbono. Muita gente pode ter pensado: “então, tá…”
Por não alterar a nossa realidade cotidiana – afinal, não altera o trânsito da cidade, não provoca aumento imediato no preço dos alimentos ou qualquer mudança nos índices de violência. Isso tudo é verdade, mas o que seria uma não notícia é, na realidade, uma das mais importantes novidades dos últimos tempos. Esse nível de concentração de CO2 significa que, segundo as previsões de mais de 2.500 cientistas de todo o mundo, reunidos pela ONU no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC em inglês), nosso planeta acaba de ultrapassar uma linha imaginária perigosa e está caminhando para um alarmante e desconhecido aquecimento.
Se tudo se confirmar, com esse aumento de temperatura, teremos menos terra para plantar alimentos; as águas dos oceanos irão invadir cidades; muitas espécies vão morrer por falta de capacidade para se adaptar a esses novos índices de calor e até mesmo é possível pensar num crescimento da violência, por que não?
Os especialistas do IPCC vão mais longe e classificam essa ultrapassagem dos 400 ppms como um patamar que coloca em risco a própria civilização conforme nós a conhecemos.
Temos reagido a esses fatos ligados às mudanças do clima, tais como a crescente ocorrência dos fenômenos climáticos extremos, quase que com total descrença.  Coisas irrelevantes dignas de ambientalistas radicais e desocupados.
O comportamento preponderante assemelha-se ao do sapo na panela. Ao pular numa panela com água fervente, o sapo salta fora dela imediatamente. Ao contrário, quando a água da panela está fria com o sapo dentro e vai aquecendo lentamente, o sapo poderá morrer, pois vai tentando se adaptar até ser consumido pelo calor.
Em relação às ações que deveriam ser tomadas pela humanidade em geral, principalmente nos fóruns internacionais sobre mudanças climáticas, realizados anualmente, o que se vê é um interminável “jogo de empurra”, postergando as urgentes medidas capazes de reverter o quadro, indefinidamente. Digno do comportamento de um sapo feliz e saltitante dentro de uma panela com água prestes a atingir o fatal grau de fervura.
Nessas horas deveríamos nos perguntar e, claro, principalmente as nossas autoridades, o que deveríamos fazer para tentar de alguma forma mudar essa realidade. O desenvolvimento não sustentável que muitas vezes produz o supérfluo destruindo o essencial é um dos grandes responsáveis por esse estado de coisas.
Não será mais possível manter essa lógica de desenvolvimento, uma visão distorcida baseada no acúmulo de bens materiais e na consequente emissão de gases de efeito estufa em proporções inéditas e perigosas.
Mas de nada adiantam reações pouco produtivas, negligentes por um lado ou alarmistas de outro. Melhor é começar um processo de mudanças de comportamento e de valores. Consumir de maneira consciente e apenas o necessário, usar menos o carro que queima combustíveis fósseis, alguns dos principais responsáveis pela emissão de gases que contribuem para o aquecimento global e reduzir o uso de energia e água evitando desperdícios, entre outras ações sustentáveis. Claro que mais importante ainda é pressionar nossas autoridades governamentais e empresariais a adotar atitudes sustentáveis e investir decididamente em atividades ligadas a economia de baixo carbono.
No caso das empresas, além de buscarem reduzir os impactos causados por suas atividades, elas também podem compensar algumas das emissões dos gases de efeito estufa, por meio do plantio de árvores que absorvem carbono durante o seu crescimento.
Uma dica é consultar o trabalho realizado por diversas organizações e empresas que realizam esse trabalho. Uma delas é a ONG Iniciativa Verde que faz restauro florestal com espécimes da Mata Atlântica prioritariamente em áreas de mananciais.  (www.iniciativaverde.org.br).
O importante é não ficar parado e agir. Enquanto a água não ferver sempre teremos a chance de pular da panela e apagar o fogo.


*Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace e coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. É colunista da revista Carta Capital, da Rádio Trianon, do Portal Mercado Ético, colaborador da Envolverde e professor de Gestão Ambiental na FAPPES.

Artigo publicado originalmente na coluna do autor no site da revista Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/perigo-no-ar-1

Blog: cantodasustentabilidade.blogspot.com
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Skype: reinaldo.canto

12 maio 2013

Lição de Casa - Valores e significados além da sala de aula


or Reinaldo Canto*
Christiano Miguel é professor da FAPPES, a Faculdade Paulista de Pesquisa e Ensino Superior, no centro de São Paulo. Ele leciona contabilidade e também exerce outras atividades profissionais.
Christiano não costuma faltar. Aliás, nas raras vezes em que isso acontece sente uma imensa culpa, “penso que tenho uma grande responsabilidade com meus alunos e a minha sensação é de desaponta-los”. E, ainda vai mais longe, “parece que tiro deles a oportunidade do conhecimento”.
Exageros à parte, o professor Chris, como é conhecido por todos, sugeriu dar essa “aula perdida” no último sábado do mês de abril, dia 27, após ter faltado na semana, em virtude de uma emergência médica familiar.
Pois bem, com o apoio da faculdade, os alunos foram convidados a participar da aula. O convite acabou se estendendo a outras classes e ao final o que seria uma aula de reposição recebeu em dois períodos, manhã e tarde, mais de 50 alunos.
Como já dito anteriormente, a obrigação do professor Chris é dar aulas de contabilidade. Ok! Mas a sua aula virou um workshop com música motivadora, vídeo de humor e até mesmo apoio às aulas de matemática com explicações sobre o uso da calculadora HP e científica. Isso tudo em pleno sábado!!
O professor Chris não ganhou dinheiro ao passar seu sábado ao lado dos alunos. Por outro lado, esses alunos também fizeram o mesmo. Em pleno sábado foram “perder seu tempo” indo até a faculdade que já frequentam de segunda à sexta.

Entre Obrigações e Exemplos

A prevalência do mantra que afirma como ideia absoluta e incontestável que “tempo é dinheiro” ou mesmo, que “o mundo pertence aos espertos”, por vezes recebe algumas boas lufadas de uma brisa diferente e redentora.
O professor Chris, é desse tipo de gente que extrapola as suas obrigações. Para quem tem o privilégio de conviver com ele, sabe que essa aula de sábado é apenas um pequeno exemplo de seu modus operandi. Ele cotidianamente abandona o senso comum, “faço o meu e está tudo certo”! Acredita em coisas consideradas por muitos como fora de moda, ou seja, solidariedade, respeito e consideração.
- E aí, professor Chris, vai repetir a experiência?
“Com certeza. Antes da segunda prova farei novamente. Acho que controlar o emocional ajuda a melhorar as atividades discentes. Foi muito bom e senti o reflexo na aula de contabilidade da segunda feira, quando não somente me agradeceram pela oportunidade como também estavam mais seguros em relação à disciplina”.
Só para reforçar pela última vez, o professor Chris tem a obrigação de ministrar aulas de contabilidade nas classes para as quais foi designado de segunda à sexta, nos horários pré-determinados. E ele simplesmente não cumpre o pré-estabelecido e ultrapassa esses limites!
Para alguns ele pode ser considerado um bom professor, para muitos outros, como os alunos que voluntariamente compareceram a aula extra do sábado e este escriba, um Ser Humano digno de receber esse título.

*Jornalista, colega de Christiano com muito orgulho!

04 maio 2013

Os efeitos colaterais do tal progresso

Índice de poluição por ozônio bate recorde e compromete a saúde do paulistano. 

Por Reinaldo Canto


Infelizmente ainda existem muitas dificuldades e resistências para que possamos analisar criticamente o chamado modelo de desenvolvimento. Questionar o crescimento determinado pelos critérios tradicionais estabelecidos pelo Produto Interno Bruto – PIB, invariavelmente,  são contestados como conversa de ambientalistas ou de quem é contra o país.
Já ouvi o economista Eduardo Giannetti da Fonseca afirmar que, se fossem contabilizadas as perdas em recursos naturais da China, o real crescimento da potência asiática, que avançava na casa dos dois dígitos em anos recentes, seria infinitamente menor.
Pois, se é mais difícil para muitos compreenderem o valor dos fundamentais serviços ambientais que a natureza do planeta nos oferece, talvez questões que impliquem na redução da qualidade de vida, possam ser mais fáceis de entender para ouvidos moucos e conservadores.
A poluição atmosférica é um desses fatores conhecidos de nós brasileiros, principalmente daqueles moradores das grandes metrópoles. Só em São Paulo, esse tipo de poluição é responsável pela morte de 4 mil pessoas por ano e também responde por milhares de internações graças a um ar cada vez mais carregado de partículas comprometedoras à saúde humana.
Neste período do ano muita gente sofre bastante com a piora na qualidade do ar. A dificuldade na dispersão dos poluentes afeta crianças e idosos em maior número, mas outras faixas etárias também são impactadas.
O maior responsável nas grandes cidades, claro, é o nefasto escapamento dos carros a soltar seus gases poluentes para serem consumidos livremente por nossos pulmões. E, por mais que muitos resistam à ideia de limitar o número de veículos a circular pela cidade dando prioridade ao transporte público, mas sim investir e implantar tecnologias menos poluentes, a realidade se mostra mais forte. É verdade que um carro deste século XXI polui muito menos que um veículo dos anos 70 do século passado, nem por isso respiramos um ar melhor. Simplesmente porque existem mais carros hoje do que no passado.
Situação piora sem solução no horizonte
Na semana passada foram divulgadas novas informações que comprometem ainda mais a saúde dos paulistas. A poluição por ozônio bateu um novo recorde na Região Metropolitana de São Paulo chegando ao pior nível em 10 anos. Para o professor Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP, “o ozônio está fora de controle” (Estadão, 23/04). Segundo o pesquisador, a péssima qualidade dos nossos combustíveis, associado a poucas chuvas e temperaturas mais altas, criaram um ambiente propício à piora na qualidade do ar.
Chegará o dia, esperemos que não seja muito tarde, em que será preciso equilibrar o tal progresso baseado no aumento do lucro e nos ganhos imediatos com os reais interesses das pessoas e levando em conta os limites ambientais.  Afinal, o verdadeiro progresso não deve se basear meramente no aumento do poder de consumo, mas em elementos que possibilitem melhorar a qualidade de vida de vida de todos. Respirar um ar limpo, beber água pura e ter uma alimentação saudável devem preceder quaisquer fatores econômicos.

Algumas no cravo, outras na ferradura

Transporte individual e mobilidade urbana simplesmente não falam a mesma língua



carros
Foto: Agência Brasil
Os anúncios publicados em jornais e revistas exibem essas máquinas maravilhosas e redentoras. A cada duas ou três páginas desses magazines de consumo instantâneo lá estão elas a mostrar seus designsmodernos e suas cores vibrantes. Já na televisão, os automóveis assumem ares de verdadeiros deuses a transformar a paisagem e são capazes de elevar seu proprietário ao Olimpo da plena realização dos desejos.
Infelizmente repletos de fantasias, os veículos de transporte individual nos são apresentados como  pertencentes ao topo da cadeia alimentar do consumo e do status social. Ser possuidor de um carro, portanto, é um sinal inequívoco de sucesso. Nada mais, nada menos do que o ápice da existência humana.
Esse desserviço diário e cotidiano da publicidade, aliado aos interesses econômicos de curto prazo causam nas cabeças de nossos governantes, uma confusão mental esquizofrênica. Afinal, incentivar a instalação de novas montadoras de automóveis, aumentar a produção e, portanto os números absolutos de veículos circulando em nossas cidades, só pode fazer parte de algum plano de cientista maluco desses que a gente se acostumou a ver em filmes que elaboram peripécias mil para acabar com o mundo.
Não é preciso ser especialista no assunto para atestar a falta total de bom senso ao incentivar um tipo de consumo que está nos levando a uma completa imobilidade em nossos centros urbanos, sejam eles grandes ou pequenos. A redução no IPI dos automóveis promovida pelo Governo Federal e as desonerações fiscais promovidas por Prefeituras para trazer essas fábricas para suas cidades, são dois dos principais exemplos de medidas de caráter puramente econômico de curto prazo, com efeitos nefastos para a vida das pessoas.
O falso dilema da gestão pública
Diante desse cenário assistimos as tentativas de acomodação para situações que, neste momento, ocupam posições totalmente opostas: transporte individual e mobilidade urbana, simplesmente não falam a mesma língua.
Um exemplo recente noticiado pelo jornal Estado de São Paulo constatou, que um complexo viário em Osasco na Grande São Paulo construído pelo Governo do Estado tinha o objetivo de desafogar o trânsito em direção à capital. A obra custou R$ 233 milhões aos cofres públicos (5 viadutos, 14 kms de marginais e 6 kms de faixas adicionais) e a conclusão, o tráfego ainda piorou, pois a média diária na circulação aumentou de pouco mais de 21 mil veículos para 28 mil. Resultado final prático: dinheiro público desperdiçado e incentivo ao uso do automóvel.
Plano de metas e votos futuros
Realizar as mudanças necessárias e não ceder às críticas da minoria privilegiada é um enorme e necessário desafio. Afinal, estudos já apontaram que 28% da população na cidade de São Paulo fazem uso de carros para sua locomoção, enquanto 30% andam à pé e quase 40% se utilizam de transporte público (ônibus e metrô).
O prefeito paulistano, Fernando Haddad, anunciou com pompa algumas de suas ações de mobilidade para a capital paulista. Entre elas, a construção de 150 kms de corredores de ônibus e com espaços, nesses mesmos corredores, para ciclovias, além de, em alguns casos, a perda de espaço para os carros em locais onde serão implantadas as novas faixas exclusivas. Hoje em dia, 3,2 milhões de pessoas fazem uso diário dos corredores de ônibus em São Paulo
A Prefeitura acredita que o incentivo ao transporte público tornado mais rápido nesses corredores exclusivos irá desestimular o uso do automóvel particular. Ônibus mais velozes, redução da poluição (os novos serão movidos a biocombustível) e … possíveis protestos!!
Será preciso tempo para saber se a redução no espaço ocupado pelos automóveis e as queixas surgidas de setores poderosos e cidadãos conservadores, zelosos por seus privilégios, não irão convencer o prefeito Haddad do absurdo de uma proposta que democratize a mobilidade paulistana.
A região dormitório e a renovação das promessas
Qualquer decisão tomada em grandes metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte para tentar melhorar o transporte acabam por mexer fortemente com a vida de muitas pessoas. Nenhuma mudança será implantada com suavidade e ampla aceitação em cidades historicamente mal planejadas, pois quase sempre essas ações são remendos para solucionar questões e áreas pontuais e não aquelas que consigam atingir soluções mais amplas.
Exemplo disso é a Zona Leste de São Paulo, região que se adensou dramaticamente e hoje conta com mais de 4 milhões de habitantes (se fosse uma cidade estaria entre as maiores do Brasil). Uma região tipicamente dormitório, na qual uma fatia enorme desse enorme contingente populacional se desloca diariamente para as outras regiões da cidade, pois próximo de suas casas, simplesmente, não existem empregos. Por mais que se melhore o transporte, não será possível atender de maneira eficiente, segura e confortável o direito de ir e vir de todas essas pessoas.
Nossos prefeitos já entenderam, no papel é claro, que o segredo está em evitar que uma boa parte da população da Zona Leste precise sair da região. É preciso levar o emprego para perto de casa. Uma lei de incentivo para a instalação de empresas foi aprovada em 2004 (gestão Marta Suplicy), mas outras administrações passaram e até agora não surtiu muito efeito. O atual prefeito Fernando Haddad prometeu ampliar os benefícios com isenções fiscais de 20 anos para empresas que atuem em áreas como informática, telemarketing e telecentro. Será que agora vai?
Cidades mais sustentáveis e com mais qualidade de vida
Os prefeitos, das milhares de cidades brasileiras que assumiram novos mandatos no começo do ano, têm o grande desafio de reverter o quadro de deterioração das condições de mobilidade pública generalizada em todo o país.
Será preciso, talvez, uma boa interlocução com o Governo Federal que, ao tentar resolver os problemas econômicos de curto prazo incentivando a compra de automóveis, joga no colo dos prefeitos, verdadeiras bombas para serem administradas. Uma simples e nefasta transferência de problema.
As cidades não merecem ser desfiguradas para atender essa demanda insana. Definitivamente é preciso entender que o transporte individual nunca será solução, mas apenas o agravamento dos problemas de locomoção das pessoas.
Em primeiro lugar é preciso entender que a cidade pertence às pessoas e não aos carros. Trabalhar, portanto, pela melhoria e ampliação do transporte público, criação de ciclovias, recuperação de calçadas e adotar medidas que contribuam para a redução dos deslocamentos são algumas das medidas possíveis e prioritárias de qualquer gestão municipal seja ela de uma metrópole como de uma pequena cidade.