15 junho 2011

Por que não sustentável e lucrativo?

por Reinaldo Canto*

Sempre perguntei a pessoas próximas, afinadas com o tema, se não seria possível falar na adoção de critérios de sustentabilidade com argumentos puramente comerciais. Significaria usar a linguagem do lucro, dos ganhos financeiros, com os quais todos – sejam eles comerciantes, produtores ou empresários – se entendem muito bem e, invariavelmente, buscam nos seus negócios.

Todos nós sabemos, ou deveríamos saber, que o desenvolvimento sustentável é o único caminho possível diante do vertiginoso e crescente esgotamento dos recursos do planeta. Nesse sentido, já não são poucas as empresas que adotaram critérios de sustentabilidade em suas atividades. Muitas representam, inclusive, fortes exemplos reconhecidos pelo mercado. Parte desse reconhecimento acaba por se registrar na valorização de suas ações em índices como o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial, da Bovespa) e o Dow Jones Sustainability (da principal bolsa norte-americana), cujo desempenho das empresas ali presentes é superior ao das integrantes do pregão normal.

Ouvimos quase todos os dias que determinada empresa tem feito esforços para reduzir o seu consumo de água, energia e insumos. Outras investem no uso de energia limpa, trocam embalagens, aderem as práticas do comércio justo, apoiam o trabalho de comunidades, aplicam a logística reversa e o tratamento de resíduos, etc, etc, etc. São muitas e fundamentais iniciativas. Mas, normalmente quando vem a público, o comunicado dessas empresas, vem acompanhado de números que dão conta do enorme benefício que as medidas adotadas passaram a representar para a sociedade e para o meio ambiente e não para os negócios. Nas entrelinhas fica a mensagem de altruísmo empresarial desconectado de um benefício comercial direto.

Ora bolas, isso contraria até mesmo a lógica do mercado. A realidade nos mostra que empresários querem bons resultados para os seus negócios em primeiro lugar. Mas quando a questão é falar de ações para a sustentabilidade parece que a visão hegemônica parte do princípio que são coisas diferentes. Qual o problema de ser bom para todos, inclusive para a própria empresa?

Para o processo de disseminação do conceito de sustentabilidade, tal postura significa um grande obstáculo. Muitas organizações empresariais poderão raciocinar que, antes de partir para as “boas ações” sustentáveis, é preciso resolver outros problemas “mais importantes”.

Uma visão errada e distorcida da realidade. Sustentabilidade deve ser entendida como algo muito positivo e, principalmente, para o futuro da atividade empresarial.

Ao se alterar processos de produção e, por exemplo, conseguir uma relevante economia de água, o melhor seria dizer o seguinte: economizamos X de água, portanto, nossa conta todo mês será de menos Y e por aí vai. Graças à certificação ambiental tal, melhoramos nossos processos, ganhamos mercado e nosso faturamento aumentou tantos por cento. Uma conta matemática simples de compreender, fácil de transmitir para um pequeno, médio ou grande empresário e muito útil para a causa da sustentabilidade. Uma boa ação para o planeta, para as pessoas e também para os negócios. Por que não?

Daterra: exemplo de bom negócio em todos os quesitos

Na semana passada visitei a fazenda Daterra, em Patrocínio, Minas Gerais, a segunda maior produtora de café do Brasil e o que vi e ouvi foi exatamente a conjunção de fatores que faz brilhar os olhos de qualquer empresário: qualidade, sustentabilidade e lucratividade.

“Se não for sustentável no lucro, consequentemente não será sustentável também para o planeta e o meio ambiente. A palavra sustentável prevê o conceito do tripple bottom line, os três lucros que são o ambiental, o social e o econômico. Portanto, nada que não dê lucro é sustentável”. Palavras do proprietário da fazenda, Luis Norberto Paschoal.

Ele ainda vai mais além na análise tendo como base a sua atividade, “O plantio do café demora sete ou oito anos para dar lucro. Nas empresas não é igual? Não é possível implantar a sustentabilidade e ganhar imediatamente. Mas depois de um período de investimento, os resultados aparecem”.

Em resumo, hoje, ser sustentável é sim um fator de lucro para a Daterra! E, ao conjugar lucratividade e sustentabilidade, Paschoal serve de exemplo para qualquer empresário. Em 2003, a Daterra foi a primeira fazenda de café a receber o certificado da Rainforest Alliance, que observa uma série de rigorosos critérios sociais e ambientais, mas sem descuidar da viabilidade do negócio. Mais tarde, outras certificações vieram e com elas novos clientes fiéis, exigentes e dispostos a pagar um pouco mais. Hoje o café Daterra é um produto com grande valor agregado, vendas consolidadas para o exterior e um futuro cada vez mais promissor.

Das resistências iniciais a exemplo de competência, os proprietários vizinhos da Daterra começaram a reconhecer os resultados do concorrente, muito superiores aos deles, e também passaram a se adequar à nova realidade e buscar certificações que lhes trouxessem ganhos associados ao aumento da qualidade e uma produção mais sustentável.

Mauricio Voivodic, secretário-executivo do Imaflora, o parceiro brasileiro da Rainforest Alliance na certificação da Daterra, explica que o fenômeno não se restringe aos produtores de café de Minas Gerais. “As empresas que estão investindo em sustentabilidade são as que estão tendo ganhos de produtividade, de qualidade e aumentando sua parcela no mercado. Porque sustentabilidade trata também de relacionamentos mais duradouros, numa boa relação com seus fornecedores, clientes e trabalhadores. Tudo isso acaba por resultar em benefício econômico. É fundamental enxergar isso, principalmente nas séries históricas de longo prazo.”

As mudanças no campo e o Código Florestal

Mudar nem sempre é muito fácil e requer avaliar as questões culturais e comportamentais. Exemplos de negócios sustentáveis e lucrativos causam um efeito fantástico nos mercados em que estão inseridos. Mas não podemos também deixar de constatar que parte dessas mudanças virão, mais dia menos dia, por um outro caminho que não requer muita discussão ou debate: a sobrevivência.

Para a presidente da Rainforest Alliance, Tensie Whelan, é preciso levar em conta os fortes sinais de mudanças que vêm do campo. “Nos últimos três a cinco anos, os agricultores tiveram muitos problemas com os recursos naturais. Falta de água, esgotamento do solo e aumento da contaminação e perceberam que é preciso investir em sustentabilidade para garantir a própria sobrevivência ”, afirma Whelan.

Sinais tão claros e óbvios que deveriam repercutir mais facilmente nas discussões do Código Florestal. Para Luis Paschoal, o proprietário da fazenda Daterra, caso o novo projeto do Código Florestal seja aprovado, “será um desastre para o Brasil”. Ele explica, “não sou xiita, mas conversei com pessoas do setor. Nós aqui no Daterra, somos três vezes mais duros do que o Código atual. Essa votação absolutamente ignorante,vai comprometer o futuro do Brasil”.

A convicção de Paschoal em relação ao Código ainda não ecoa com a mesma força que o exemplo de desenvolvimento sustentável da Daterra. Francisco Sergio de Assis, presidente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado e vizinho da Daterra, apoia com entusiasmo o projeto do Código Florestal aprovado até aqui pela Câmara dos Deputados.

Razões à parte, o caminho para o desenvolvimento sustentável, ainda está repleto de obstáculos e espinhos. Os argumentos, além dos problemas ambientais cada vez mais graves e persistentes, ainda não parecem ser suficientes para fazer com que as obviedades sejam enxergadas como tal. Até lá, resta-nos permanecer firmes no debate e mostrar aos empresários que ser sustentável, antes de ser bondade é questão de inteligência. Porque quando a sobrevivência restar como principal enfoque, muitas coisas boas já estarão irremediavelmente perdidas.

* Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace e coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. É colunista da revista Carta Capital e colaborador da Envolverde.

Artigo publicado originalmente na coluna do autor, Cidadania & Sustentabilidade, no site da revista Carta Capital. http://www.cartacapital.com.br/sociedade/por-que-nao-sustentavel-e-lucrativo

Blog: cantodasustentabilidade.blogspot.com
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(Carta Capital/Envolverde)

06 junho 2011

Palestra no Sindicato debate inserção de pautas sustentáveis no jornalismo






A Comissão Permanente e Aberta de Jornalistas em Assessoria de Comunicação (CPAJAC) do Sindicato realizou na última segunda-feira, dia 30 de maio, no auditório Vladimir Herzog, a palestra “As novas pautas da sustentabilidade”. A atividade direcionada aos profissionais de comunicação e estudantes foi ministrada pelo jornalista especializado na área, diretor-executivo do Instituto dos Mananciais e colunista da Carta Capital, Reinaldo Canto, que falou da necessidade de inserção de pautas que abordem o tema da sustentabilidade nas redações.
A mesa foi coordenada por Sylvio Micelli, da Comissão de Assessoria de Comunicação e contou com a presença do presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, José Augusto Camargo (Guto). Também estavam presentes no evento a diretora de Sindicalização, Márcia Quintanilha e Denise Fon, da Comissão de Ética do SJSP - ambas da CPAJAC.
O presidente do Sindicato abriu o encontro relembrando o valor histórico da Comissão de Assessoria. Ele falou sobre a luta pela consolidação da função de assessoria de imprensa enquanto atividade jornalística, realizada há mais de 20 anos atrás. “Nesta época, o debate sobre o tema era intenso e não foi uma discussão fácil. Hoje somos referência internacional para países que ainda não conseguiram avançar nesse ponto. Não é a toa que temos uma brasileira na secretaria da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), que é a Beth Costa, ex-presidente da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro".
Guto também ressaltou as condições mercadológicas atuais da assessoria, que em sua avaliação, têm crescido muito nos últimos tempos. “O 23º Encontro Estadual de Jornalistas em Assessoria de Comunicação (EJAC), que ocorrerá de 26 a 28 de agosto, discutirá a assessoria de imprensa no cenário de crescimento econômico, informou.”
Já o palestrante, Reinaldo Canto, apresentou um conjunto de slides sobre a realidade jornalística nos dias atuais e as suas possibilidades de mudança. Para o especialista, o principal é fazer com que a sustentalidade faça parte da pauta diária das redações. “Para que isso aconteça é preciso pensar em editorias transversais que perpasse a questão em todas as editoriais, não só na de meio ambiente”.
O jornalista também esclareceu que o tema trata de qualidade de vida e, é importante que ela não pode seja rotulada ou ideologizada. “Desenvolvimento sem sustentabilidade não é desenvolvimento. A pergunta é: Qual o papel do jornalismo na criação de um futuro sustentável em tempos de Aquecimento Global, Mudanças Climáticas e Crise Econômica? O fundamental é a análise mais abrangente somada a aspectos econômicos, ambientais e sociais”, salientou.
Dados da pesquisa Ethos/ Akatu, apresentados por Reinaldo, apontam que 84% da população não sabe o que é sustentabilidade. Mesmo assim, na prática, existem ações positivas como evitar desperdício de água fechando torneiras, apagar luzes, separar o lixo e reciclagem. Para finalizar ele apresentou ações estratégicas do Greenpeace e do Instituto Akatu, (organizações onde já trabalhou) de assessoria de imprensa para comunicar suas ações.

(Fotos André Freire)

24 maio 2011

25 ANOS DA SOS MATA ATLÂNTICA: MATURIDADE E NOVOS DESAFIOS

Na cerimônia de comemoração, a presença plural e heterogênea de todos os setores mostra o que se deve esperar do movimento ambientalista nos próximos anos

Por Reinaldo Canto*

Na última quinta-feira 19, a mais importante organização ambiental 100% brasileira comemorou seus 25 anos de existência marcados por muita luta, diversas frustrações, mas também de êxitos emblemáticos como a criação do Pólo Ecoturístico do Lagamar no litoral sul de São Paulo e a criação do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica – que apresenta o resultado do mapeamento e monitoramento da floresta e seus ecossistemas associados, entre outros.

O que mais chamou a atenção das pessoas que lotaram o Porão das Artes, no Parque do Ibirapuera, foi à diversidade entre as autoridades e lideranças ali presentes. Que a comemoração dos 25 anos da organização já é um motivo e tanto para comparecer, todos sabemos, mas o significado e representatividade dessas participações devem ser destacados como algo muito positivo.

Pelo local passaram e alguns também foram homenageados, parlamentares e lideranças partidárias de matizes diversas, empresários de destaque no cenário nacional, representantes de governos variados, além dos chamados formadores de opinião jornalistas, artistas, economistas, entre outros istas de destaque.

Um novo caminho e uma montanha como obstáculo

Vivemos. sem dúvida, uma nova realidade na história das lutas ambientais no Brasil, ou seja, a de superar visões míopes, reducionistas e obtusas e colocar em seu lugar um olhar mais claro e objetivo com vistas ao futuro comum a que todos nós estamos destinados.

Se como muitos disseram sobre o movimento ambientalista que, “seus integrantes caberiam facilmente numa Kombi” quando a SOS Mata Atlântica deu seus primeiros passos, a cerimônia dos 25 anos deixou claro que esse passado já está totalmente superado.

A questão é que mesmo a justa alegria pela comemoração do aniversário da entidade, foi pontuada por falas que lembravam a todo instante o delicado momento pelo qual passamos: A iminência da aprovação do novo texto do Código Florestal.

Reflexos do debate contribuíram para acelerar o desmatamento

O anúncio de que o ritmo do desmatamento na Amazônia cresceu cinco vezes (473%) nos meses de março e abril, em comparação com o mesmo período do ano passado, não tirou o brilho da festa, mas potencializou as preocupações de todos com o futuro.
Se a consciência para a adoção de critérios de desenvolvimento sustentável vem crescendo de maneira sólida, também é verdade que ainda existem, e não são poucos, os que acham o meio ambiente apenas um estorvo no caminho da ganância e do lucro a qualquer preço.

O relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que dá nova redação e altera pontos importantes do Código Florestal em vigência, é um desses exemplos, baseado no modelo predatório de desenvolvimento do século XX. Ele é defendido com unhas e dentes por setores do agronegócio conhecidos por seu reacionarismo e truculência e, por outro lado, é combatido por amplos setores que, longe de apenas exercerem uma militância ambiental, querem uma discussão mais democrática e pluralista, entre eles, os cientistas ligados a Academia Brasileira de Ciências e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Recentemente, as entidades divulgaram um documento apelando para o bom senso e pediram abertamente para que o debate não seja ideológico, mas baseado em pesquisas científicas que apontem os melhores e mais confiáveis caminhos em que estejam contemplados o desenvolvimento e a preservação ambiental. Os cientistas deixaram claro que muito tem a contribuir, mas até o momento sequer foram ouvidos.
Façamos votos agora, para que os festejos pelos 25 anos da SOS Mata Atlântica, não sejam manchados pela aprovação de um novo Código Florestal, que tanto mal fará para o futuro do Brasil e dos brasileiros.

Vida longa SOS Mata Atlântica!

*Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.

Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade: http://www.cartacapital.com.br/carta-verde/maturidade-e-novos-desafios

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19 maio 2011

O que aconteceu no Green Drinks? 05 de maio de 2011

Nosso convidado foi Reinaldo Canto

Ao entrar no mundo da sustentabilidade descobriu que provocar é uma boa forma de por o tema em pauta. Um de seus artigos mais polêmicos dizia que quem trabalha com sustentabilidade não deve ser taxado como “chato” e viver se defendendo. Os rótulos da sustentabilidade (esquerda? Direita? Muito pelo contrário!)

Existem, portanto, diversos rótulos e paradigmas. Os paradigmas envolvem o medo de mudanças, a oposição ao desenvolvimento - como pode haver desenvolvimento sem sustentabilidade? O desenvolvimento precisa ser sustentável. Outros paradigmas são o distanciamento da realidade – futuro é longe; a fauna e a flora ficam longe – o meio ambiente e os seres humanos são um todo, e não partes.

A questão do consumo também foi discutida..os números eram impressionantes!

Um fato: A realidade já não é mais a mesma – cresce mais a quantidade de lixo produzida no Brasil do que a população!

Questão: Petróleo vale mais que água! Que tipo de valor estamos considerando?

A partir disso pudemos estabelecer uma discussão sobre valor, valores, publicidade e diversos outros assuntos:

O imediatismo é que nos faz distanciarmos da realidade - “a água está acabando? Mas eu tenho água na minha torneira”.

A questão do TER x SER - a publicidade e os efeitos: os desejos latentes que são despertados. Mas também pode se tornar um aliado – pega na emoção!
Novamente é levantada a questão de como lidar com esta diferença entre esquerda e direita. A carta capital tem pessoas mais radicais e é um veículo mais de esquerda. A dificuldade está em passar que sustentabilidade é um tema macro, não é ideologia!

Por fim, Reinaldo- que trabalhou dois anos como diretor de comunicação do Greenpeace - contou um pouco da história do Greenpeace e passou vídeo inspirador que você pode conferir no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=cbLg1SoA2w0&feature=fvst

17 maio 2011

Palestra sobre sustentabilidade no Sindicato


A Comissão de Assessoria de Comunicação do Sindicato realiza no próximo dia 30 de maio, das 19h30 às 21h30, no auditório Vladimir Herzog a palestra “As novas pautas da sustentabilidade”, com o diretor-executivo do Instituto dos Mananciais e colunista da Carta Capital, Reinaldo Canto. O evento destina-se a estudantes de comunicação, jornalistas, assessores de imprensa de empresas públicas e privadas e ONGs. As inscrições – R$ 30,00 (não sindicalizados) e R$ 15,00 (associados e estudantes) devem ser realizadas até 15 de maio com Melissa ou Paula através do (11) 3217-6299 – diretoria.

O objetivo é abordar os novos desafios da cobertura ambiental e dos temas da sustentabilidade. Em tempos de Aquecimento Global, Mudanças Climáticas e Crise Econômica, qual o papel das assessorias de imprensa, dos veículos de comunicação e dos jornalistas? Os novos conceitos, as novas pautas e a quebra dos paradigmas da visão tradicional de se fazer jornalismo, entre elas crescimento x sustentabilidade. A capacitação e os desafios do assessor de imprensa para comunicar as ações das empresas, governos e ONGs.

O palestrante, Reinaldo Canto, é jornalista há 31 anos com passagens pelas principais empresas de televisão e rádio do Brasil. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos de Responsabilidade Social. Atualmente é diretor-executivo do Instituto dos Mananciais e colunista da Carta Capital.

(Assessoria de Imprensa)

08 maio 2011

LIXO 6 X 0 BRASIL – GOLEADA PARA A SOCIEDADE DO DESPERDÍCIO

Por Reinaldo Canto*

Em 2010, o Brasil produziu 60,8 milhões de toneladas dos chamados resíduos sólidos urbanos. Essa quantidade foi 6,8% mais alta que a registrada em 2009 e seis vezes maior que o crescimento populacional que, no mesmo período, ficou em pouco mais
de 1%. De todo esse resíduo, cerca de 6,5 milhões de toneladas foram parar em rios, córregos e terrenos baldios. Ainda 42,4%, ou seja, 22,9 milhões de toneladas foram depositados em lixões e aterros controlados e que não fazem o tratamento adequado dos resíduos. Estas conclusões fazem parte do estudo Panorama dos Resíduos Sólidos divulgado na semana passada pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais).

Detalhes do mesmo relatório demonstram que estamos muito, mas muito distantes de tornar o consumo consciente uma prática cotidiana na vida das pessoas em nosso país. Um bom exemplo é que no ano passado, a média de lixo gerado por brasileiro ficou em 378 quilos, o que é 5,3% superior aos 359 quilos de lixo per capita computados em 2009.

O que esperar do futuro

Em uma sociedade de consumo que vem se caracterizando pelo culto ao descartável, a quantidade de lixo é proporcional a falta de consciência e ações que passam por todos os setores, sejam eles públicos ou privados, até chegar ao próprio cidadão.

Se por um lado podemos registrar com orgulho que no Brasil temos o mais alto nível de reciclagem de latinhas de alumínio do mundo, por outro, também é fácil afirmar que existem materiais tão diversos como papel, papelão, vidro, isopor, garrafas PET, sacolas plásticas e tantos outros que são perfeitamente recicláveis e que simplesmente não o são, por falta de apoio a coleta e comercialização. Pelo menos 30% dos lixos domiciliares são compostos de materiais recicláveis, mas apenas 1% acaba sendo, efetivamente, recuperado pela coleta seletiva.

É muito triste imaginar que toneladas de material reciclável entopem os lixões e aterros quando poderiam voltar a ser utilizados por empresas em produção de novos produtos. Um caso exemplar é o do vidro. Um quilo de vidro é totalmente aproveitado na reciclagem num círculo virtuoso que contribui para que não sejam necessárias as extrações de matérias-primas existentes na natureza. Isso vale para todos os outros materiais que são descartados. Papéis reutilizados e reciclados evitam o corte de árvores; sacolas plásticas reutilizadas e recicladas deixam de entupir bueiros, poluir rios e mares etc.

As razões para esse estado de coisas são inúmeras: ausência de políticas públicas efetivas de incentivo a coleta e reciclagem e de educação ambiental para a população; uma parte da iniciativa privada que não se empenha em tratar resíduos e criar ações para reaproveitamento de materiais na sua linha de produção e o cidadão que desperdiça, não reutiliza, não recicla e ainda joga lixo nas praças, ruas, rios e lagos.

Política Nacional de Resíduos Sólidos para mudar a realidade

Boa parte das esperanças para reverter esse quadro reside na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), regulamentada em dezembro de 2010 e que estabelece o princípio da responsabilidade compartilhada em relação à destinação dos resíduos. Todos os integrantes da cadeia produtiva sejam eles fabricantes, distribuidores, importadores, comerciantes e até mesmo os consumidores serão responsáveis por todo o processo de ciclo de vida do produto até a disposição final, também conhecido como logística reversa. Nessa conta de responsabilidades também estarão inseridos os serviços de limpeza públicos e de manejo dos resíduos sólidos. A lei prevê ainda o fim dos lixões em todos os municípios brasileiros até 2014.

Diante do aumento da geração de lixo, os desafios propostos pela nova política são enormes e vão requerer esforços dobrados nos próximos anos. Portanto, é preciso também trazer outras questões para a discussão que contribuam para avançar nesse processo.

Cobrar o que é de graça, aumentar o preço do que for muito barato

Um caminho é dar o devido valor ao que hoje é tratado como lixo. Se o poder público garantisse preços convidativos para os materiais hoje menos atrativos, tenho certeza que teríamos mais plásticos, papéis, vidros, isopores, entre outros, sendo recolhidos com eficiência e, consequentemente, voltariam para a cadeia produtiva ao invés de descartados.

Vivemos situações críticas em várias áreas vitais para a sobrevivência humana, a questão da geração do lixo, da contaminação das águas, o desmatamento e o aquecimento global estão entre as principais. Infelizmente, medidas isoladas sejam do poder público, sejam da iniciativa privada e até de cidadãos mais conscientes são louváveis, mas de resultado limitado.

Cobrar por todos esses materiais e embalagens dando valor ao que as pessoas hoje descartam seria uma maneira rápida de mudar a realidade tenebrosa do desperdício, do descarte inconseqüente e da falta de educação.

O melhor, é claro, seria conquistar consciências, mas é óbvio também que os resultados tem sido modestos até mesmo nos países ditos desenvolvidos e educados.

Boa notícia chega do varejo!

Falando em outros países, algo que já foi adotado fora do Brasil vai chegar por aqui nos próximos dias: a cobrança pelas sacolas plásticas!

No próximo dia 9 de maio, um acordo será assinado pela APAS (Associação Paulista de Supermercados) e o Governo do Estado de São Paulo prevendo, inicialmente, uma campanha de 6 meses para a conscientização do consumidor para a importância de usar sacolas retornáveis, caixas ou carrinhos de feira no transporte das compras. Após esse período, ou seja, meados de novembro, as sacolas plásticas tradicionais, que demoram cerca de 100 anos para se decompor, serão substituídas por sacolinhas feitas à base de amido. Essa nova sacola se decompõe no máximo em 180 dias e será vendida pelo preço de custo (R$ 0,20 a unidade).

Essa experiência já foi adotada com sucesso em Jundiaí, cidade de 370 mil habitantes, próxima a Campinas. Hoje apenas 5% dos consumidores acabam por adquirir as sacolinhas biodegradáveis. A maioria esmagadora já se acostumou a nova realidade e, como em outros países, abandonou o uso das sacolas descartáveis.

Quem sabe se com mais ações como essa e um pouquinho mais de consciência, os números do Panorama de Resíduos Sólidos em 2012 não poderão apresentar surpresas mais agradáveis que os deste ano?

*Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de comunicação do Greenpeace e coordenador de comunicação do Instituto Akatu. É colunista de Carta Capital e colaborador da Envolverde.

Artigo publicado originalmente na coluna Cidadania & Sustentabilidade:
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/brasil-perde-de-goleada-para-a-sociedade-do-desperdicio

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(Envolverde/Carta Capital)

02 maio 2011

GREEN DRINKS

Caros frequentadores do Green Drinks e demais interessados,

Nosso próximo encontro será com Reinaldo Canto, jornalista que já trabalhou em emissoras de rádio, de TV e também atuou como assessor de imprensa em grandes empresas. Especializando-se em sustentabilidade e consumo consciente, Reinaldo foi diretor de Comunicação do Greenpeace, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, além de correspondente da Envolverde, Carta Capital e mídias ambientais na COP-15 em Copenhague.

Como colunista de Cidadania & Sustentabilidade pela Carta Capital, Reinaldo escreveu recentemente artigos como os polêmicos “Nem direita, nem esquerda, muito pelo contrário” e “Parabéns, São Paulo: 7 milhões de carros” que serão a base de nosso bate-papo e podem ser visualizados em < www.cartacapital.com.br>.

Venha participar!

Local: Ekoa Café - Rua Fradique Coutinho, 914 - Vila Madalena

Data: 05/05/2011 (quinta-feira)

Horário: 19:30 às 22:00